O Arrebatamento como Mistério

Escatologia10 min de leitura

1. Introdução

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo chama o Arrebatamento de “mistério” (1 Coríntios 15.51). Esse termo não é casual nem meramente poético; é uma categoria teológica precisa. Entender por que o Arrebatamento é um mistério esclarece tanto a sua singularidade quanto o seu lugar no programa profético de Deus.

Este artigo vai explicar o conceito neotestamentário de mistério (mystērion), mostrar como o Arrebatamento se encaixa nessa categoria e destacar o que torna o Arrebatamento sem precedentes na revelação bíblica — especialmente o fato de que uma geração inteira de crentes pode ser introduzida na glória sem jamais passar pela morte.


2. O Significado de “Mistério” (mystērion) no Novo Testamento

2.1 Não um enigma, mas um segredo revelado

Infográfico mostrando o significado de mistério no Novo Testamento e como o arrebatamento se encaixa nessa categoria.
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Infográfico mostrando o significado de mistério no Novo Testamento e como o arrebatamento se encaixa nessa categoria.
Uma infografia em duas colunas define um 'mistério' do Novo Testamento como uma verdade antes oculta, mas agora revelada, e lista quatro mistérios principais, destacando o arrebatamento como uma revelação recém-divulgada.

No uso comum, “mistério” é algo estranho ou difícil de entender. No Novo Testamento, porém, mistério é um segredo divino antes oculto, mas agora revelado por Deus. É uma verdade que:

  1. Não poderia ser conhecida por investigação humana.
  2. Não foi revelada no Antigo Testamento.
  3. Agora foi manifestada por meio de Cristo e de seus apóstolos.

Paulo descreve essa categoria de forma clara:

“O mistério que esteve oculto durante épocas e gerações, mas que agora foi manifestado aos seus santos.”
Colossenses 1.26

Em outras palavras, um mystērion não é algo eternamente obscuro; é um aspecto antes não revelado do plano de Deus, que Ele decidiu desvelar na era do Novo Testamento.

Exemplos incluem:

  • A igreja — judeus e gentios unidos em um só corpo em Cristo (Efésios 3.3–6).
  • “Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1.27).
  • O endurecimento parcial de Israel até que chegue a plenitude dos gentios (Romanos 11.25).

A essa lista Paulo acrescenta o Arrebatamento como um mistério.


3. “Eis que Eu vos digo um Mistério”: o Arrebatamento em 1 Coríntios 15.51

O texto central é 1 Coríntios 15.51–53:

“Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta; a trombeta soará,
os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados.
Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade,
e que o corpo mortal se revista da imortalidade.”

Paulo identifica explicitamente o que vai revelar como “um mistério”. Qual é o conteúdo desse mistério? Pelo menos três elementos:

  1. “Nem todos dormiremos” – Nem todos os crentes experimentarão a morte física.
  2. “Mas todos seremos transformados” – Crentes mortos e vivos receberão corpos glorificados.
  3. “Num momento, num abrir e fechar de olhos” – Essa transformação será instantânea e simultânea.

A verdade nova e distinta aqui não é que haverá uma ressurreição — isso já era conhecido no Antigo Testamento —, mas que uma geração inteira de crentes será arrebatada sem passar pela morte, embora igualmente transformada.


4. O Arrebatamento Não Foi Revelado no Antigo Testamento

4.1 A ressurreição era conhecida; o Arrebatamento, não

O Antigo Testamento afirma com clareza a ressurreição corporal. Por exemplo:

  • Daniel 12.2: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna…”
  • Isaías 26.19: “Os teus mortos viverão; os seus corpos ressuscitarão.”

O que essas passagens não revelam é:

  • Um arrebatamento dos santos vivos para se encontrarem com o Senhor nos ares.
  • Uma transformação simultânea de crentes mortos e vivos em corpos glorificados e imortais.
  • A possibilidade de um grande grupo de santos jamais experimentar a morte.

Esses elementos específicos do Arrebatamento estão totalmente ausentes da profecia veterotestamentária. São revelação nova, dada apenas depois da morte e ressurreição de Cristo e confiada especialmente a Paulo.

4.2 A revelação neotestamentária do Arrebatamento

Três passagens-chave do Novo Testamento desdobram juntas esse mistério:

  1. João 14.1–3 – A promessa de Jesus de levar os seus para a casa do Pai.
  2. 1 Tessalonicenses 4.13–17 – Descrição detalhada do arrebatamento de crentes mortos e vivos.
  3. 1 Coríntios 15.51–53 – Ênfase no mistério da transformação sem morte.

Em João 14.3, Jesus declara:

“E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver.”

É o primeiro anúncio claro, na revelação bíblica, de Cristo vindo para receber o seu povo para o céu, e não para estabelecer imediatamente o seu reino na terra. Mas a mecânica de como isso ocorreria permaneceu em grande parte indefinida até o ensino posterior de Paulo.

Em 1 Tessalonicenses 4.16–17, Paulo delineia a estrutura:

“Porque o Senhor mesmo descerá do céu, com grande brado, à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus,
e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos,
seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares,
e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.”

Então, em 1 Coríntios 15, ele explica o aspecto da transformação como um mistério antes oculto.


5. O que Exatamente é Novo no Arrebatamento?

5.1 A promessa sem precedentes: alguns crentes nunca morrerão

O elemento mais marcante do mistério do Arrebatamento é resumido na frase simples:

“Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados” (1 Coríntios 15.51).

Na linguagem bíblica, “dormir” é uma metáfora frequente para a morte dos crentes (1 Tessalonicenses 4.13–14). Paulo está dizendo que:

  • Uma geração final de cristãos estará viva na terra quando Cristo vier.
  • Esses crentes não experimentarão a morte física.
  • Todavia, passarão pela necessária mudança de mortal para imortal.

Isso é algo que nenhum crente do Antigo Testamento poderia ter deduzido. O padrão consistente até essa revelação era:

Vida → Morte → Ressurreição → Glória.

O mistério do Arrebatamento revela um novo padrão para uma geração específica:

Vida → Transformação instantânea → Glória.

5.2 A natureza corporativa e instantânea do evento

Outro aspecto novo é o caráter corporativo e instantâneo da transformação:

  • “Num momento” – O termo grego (atomos) sugere um instante indivisível.
  • “Num abrir e fechar de olhos” – O movimento humano observável mais rápido.
  • “Todos seremos transformados” – Nenhum crente é excluído, seja recém-convertido, seja maduro na fé; todos os que estão em Cristo são transformados.

Essa transformação simultânea de toda a igreja viva, juntamente com a ressurreição de todos os crentes mortos da era da igreja, é um evento único no programa de Deus — não revelado antes do Novo Testamento.

5.3 Encontrar o Senhor nos ares e ir para a casa do Pai

Um elemento adicional do mistério é o modo e o destino desse encontro:

  • “Seremos arrebatados… entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1 Tessalonicenses 4.17).
  • Ser levados para a casa do Pai (João 14.2–3).

A profecia do Antigo Testamento antecipa de forma predominante o Messias vindo à terra para reinar, com seus santos desfrutando de bênçãos em um reino terreno renovado. A ideia de que:

  • Cristo desceria até certo ponto,
  • Seus santos subiriam para encontrá-lo nos ares,
  • E Ele então os conduziria à casa do Pai, no céu,

é distintiva da revelação do Novo Testamento e jamais é descrita na expectativa profética do Antigo Testamento.


6. O Arrebatamento em Relação a Outros “Mistérios”

Infográfico de linha do tempo ligando mistérios da era da igreja com o arrebatamento e o plano profético de Deus.
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Infográfico de linha do tempo ligando mistérios da era da igreja com o arrebatamento e o plano profético de Deus.
Uma linha do tempo horizontal mostra a era da igreja da cruz até o arrebatamento, marcando quatro mistérios do Novo Testamento e distinguindo a esperança celestial da igreja da esperança do reino terrestre de Israel.

Ao chamar o Arrebatamento de mystērion, Paulo o coloca ao lado de outras revelações neotestamentárias centrais que definem a era da igreja:

  • A igreja como um novo homem, judeus e gentios unidos em um só corpo (Efésios 3.3–6).
  • Cristo habitando nos crentes, “Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1.27).
  • O endurecimento parcial de Israel até que chegue a plenitude dos gentios (Romanos 11.25).

Cada uma delas:

  1. Não foi revelada no Antigo Testamento.
  2. Diz respeito à obra distinta de God na presente era.
  3. É desenvolvida especialmente nas epístolas paulinas.

O Arrebatamento como mistério segue esse mesmo padrão. Ele está intimamente ligado à doutrina da igreja — o corpo de Cristo, formado pelo Espírito no Pentecostes e concluído no Arrebatamento. O Arrebatamento é, em certo sentido, o “êxodo” da igreja deste mundo, tão singular quanto o Pentecostes foi o seu nascimento sobrenatural no mundo.


7. Por que o Arrebatamento Precisa Ser um Mistério Revelado

7.1 Ele depende da obra consumada de Cristo e da existência da igreja

O Arrebatamento não poderia ser revelado antes de:

  • A morte e ressurreição de Cristo, que garantiram a vitória sobre a morte e asseguraram a ressurreição e a glorificação.
  • A formação da igreja, um povo distinto, unido a Cristo como seu corpo e sua noiva.

Somente quando essas realidades redentoras estão em foco é que Deus pode desvelar o seu plano de:

  • Encerrar a era da igreja arrebatando todo o corpo de Cristo.
  • Transformar crentes mortos e vivos à semelhança gloriosa de Cristo.

Assim, o próprio momento da revelação caracteriza o Arrebatamento como um mistério. Ele pertence à era após a cruz e após o Pentecostes e, portanto, não poderia ser conhecido nos tempos do Antigo Testamento.

7.2 Ele evita confusão com as expectativas do reino no Antigo Testamento

Ao reter essa verdade até o Novo Testamento, Deus impede a mistura de duas linhas proféticas distintas:

  1. A esperança do reino terreno de Israel — o Messias reinando em Jerusalém sobre Israel restaurado e as nações.
  2. A esperança celestial da igreja — ser arrebatada para se encontrar com Cristo e estar com Ele onde Ele está.

Revelar o Arrebatamento como um mystērion distinto nos permite respeitar ambas as linhas proféticas sem confundi-las.


8. Implicações Práticas do Arrebatamento como Mistério

8.1 Um chamado à expectativa

Porque o Arrebatamento não está vinculado a sinais visíveis do Antigo Testamento, mas decorre de revelação nova dirigida diretamente à igreja, ele é apresentado aos crentes como um evento iminente:

  • Os crentes são exortados a esperar dos céus o seu Filho (1 Tessalonicenses 1.10).
  • A aguardar a bendita esperança (Tito 2.13).
  • A estar em prontidão, para não serem envergonhados em sua vinda (1 João 2.28).

8.2 Um consolo único diante da morte

Paulo introduz o ensino sobre o Arrebatamento em 1 Tessalonicenses 4.13–18 com o propósito explícito:

“…para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança.”

Por causa do mistério do Arrebatamento, os crentes podem afirmar, mesmo à beira de um túmulo:

  • Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.
  • Nós, os vivos, seremos reunidos a eles.
  • Uma geração inteira pode jamais experimentar a morte.

Essa dupla certeza — ressurreição dos mortos e transformação dos vivos — repousa precisamente sobre o mistério recém-revelado por Paulo.


9. Conclusão

Quando Paulo escreve: “Eis que vos digo um mistério” (1 Coríntios 15.51), ele não está apenas adornando uma doutrina já familiar, mas desvelando um aspecto inteiramente novo do plano redentivo de Deus. O Arrebatamento é um mistério porque:

  • Não foi revelado no Antigo Testamento.
  • Depende da obra consumada de Cristo e da existência da igreja.
  • Introduz uma realidade totalmente sem precedentes: alguns crentes nunca morrerão, mas serão transformados, num instante, em glória imortal.

Essa verdade recém-revelada não cancela as promessas do Antigo Testamento; ela as complementa. Como parte da revelação mais ampla do Novo Testamento, o Arrebatamento manifesta a graça de Deus para com a sua igreja e reforça a certeza da nossa transformação final:

“Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade,
e que o corpo mortal se revista da imortalidade.”
1 Coríntios 15.53

Entender o Arrebatamento como mistério é reconhecê-lo como revelação pura — um dom de discernimento divino quanto aos propósitos de Deus para o seu povo na presente era e quanto à sua extraordinária saída deste mundo na vinda do Senhor.

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Perguntas Frequentes

Por que Paulo chamou o arrebatamento de “mistério”?
No Novo Testamento, “mistério” (mysterion) não é algo enigmático, mas uma verdade divina antes oculta e agora revelada. O arrebatamento não foi revelado no Antigo Testamento; é uma nova revelação dada por Cristo e pelos apóstolos sobre como se concluirá a era da igreja.
Qual é o mistério a respeito do arrebatamento?
O mistério é que uma geração inteira de crentes receberá corpos glorificados SEM passar pela morte: “Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos” (1Co 15.51). O Antigo Testamento ensinou a ressurreição após a morte, mas nunca que alguns crentes seriam poupados da morte por uma transformação instantânea.

L. A. C.

Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.

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