Uma Análise da Visão do Arrebatamento Pré-Ira

Escatologia12 min de leitura

1. Introdução

Entre as posições modernas sobre o Arrebatamento na escatologia evangélica, a visão do arrebatamento pré‑ira (associada principalmente a Marvin Rosenthal e Robert Van Kampen) é uma das mais recentes e complexas. Trata-se de uma variação do midtribulacionismo, porém com terminologia distinta e uma forma particular de dividir a septuagésima semana de Daniel.

Este artigo irá (1) resumir as principais afirmações da visão pré‑ira, (2) examinar seus pilares exegéticos centrais e (3) demonstrar, à luz das Escrituras, que a ira de Deus começa com os juízos dos selos, e não apenas com os juízos das trombetas ou das taças. Ao longo do caminho, também trataremos da distinção central que os proponentes do pré‑ira fazem entre a “ira de Satanás” e a “ira de Deus”, e por que essa distinção não sustenta o esquema proposto.


2. Principais Afirmações da Visão do Arrebatamento Pré‑Ira

Linha do tempo em infográfico da visão do arrebatamento pré-ira da septuagésima semana de Daniel e dos selos de Apocalipse.
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Linha do tempo em infográfico da visão do arrebatamento pré-ira da septuagésima semana de Daniel e dos selos de Apocalipse.
Uma ampla linha do tempo em infográfico mostrando como a visão do arrebatamento pré-ira organiza a septuagésima semana de Daniel, os selos, as trombetas, os vasos e o momento do arrebatamento em relação à ira de Deus.

Embora os proponentes individuais difiram em alguns detalhes, o ensino pré‑ira geralmente apresenta a seguinte estrutura para a septuagésima semana de Daniel (Daniel 9.27):

  1. Primeira metade (anos 1–3½): “Princípio das dores”

    • Iniciada pela aliança do Anticristo com Israel.
    • Identificada com os quatro primeiros selos de Apocalipse 6.
    • Classificada como tempo da “ira do homem”, não da ira divina.
    • Não é “a Tribulação” no sentido técnico e profético.
  2. Ponto médio: Abominação da desolação (Mateus 24.15; Daniel 9.27; 2 Tessalonicenses 2.3–4)

    • O Anticristo revela seu verdadeiro caráter, profana o templo e inicia a perseguição a Israel.
  3. Terceiro quarto (aproximadamente anos 3½–5): A “Grande Tribulação”

    • Começa na abominação do meio da semana.
    • Identificada com o quinto selo (mártires) e parte do sexto selo (perturbações cósmicas).
    • Definida como ira de Satanás e perseguição do Anticristo, não como ira de Deus.
    • Segundo Mateus 24.22, é “abreviada”, de modo que dura menos que 3½ anos completos.
  4. Arrebatamento pré‑ira: em algum momento após o sexto selo, mas antes do sétimo

    • Cristo aparece; a igreja é arrebatada entre o sexto e o sétimo selos.
    • Afirma-se que o Arrebatamento ocorre “antes da ira” (daí o termo “pré‑ira”), porém dentro da segunda metade da septuagésima semana.
  5. Último quarto (cerca de 1½–2 anos): O Dia do Senhor / Ira de Deus

    • Começa com o sétimo selo (Apocalipse 8.1).
    • Compreende os juízos das trombetas (Apocalipse 8–9; 11.15ss).
    • A ira de Deus cai sobre um mundo incrédulo; a igreja já está no céu.
  6. Extensão de trinta dias e juízos das taças (Daniel 12.11–12)

    • Os juízos das taças (Apocalipse 16) são frequentemente colocados nesse período pós‑semana.
    • Cristo retorna à terra com os seus santos ao final desses juízos para destruir o Anticristo e inaugurar o reino milenar.

Nesse esquema, o “Arrebatamento da igreja” e a “Segunda Vinda” não são totalmente confundidos, como no pós‑tribulacionismo estrito; em vez disso, o Arrebatamento é colocado tarde na segunda metade, mas antes da ira culminante do Dia do Senhor, que começa no sétimo selo.

O motor teológico principal é simples: a igreja não foi destinada para a ira de Deus (1 Tessalonicenses 1.10; 5.9); portanto, o Arrebatamento deve ocorrer antes que essa ira comece. A visão pré‑ira argumenta que a ira de Deus não começa antes do término do sexto selo.


3. A Ira de Deus Começa Apenas com o Sétimo Selo?

A questão decisiva é: Quando a Bíblia diz que a ira de Deus começa no Apocalipse? A visão pré‑ira responde: “Com o sétimo selo.” O texto de Apocalipse, porém, aponta para mais cedo—já dentro dos juízos dos selos.

3.1. O Cordeiro Abre Cada Selo

Apocalipse 5–6 apresenta o Cristo glorificado como o único digno de abrir o livro selado:

“Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono.”
Apocalipse 5.7

Em seguida:

“Vi quando o Cordeiro abriu um dos sete selos…”
Apocalipse 6.1

…e a mesma fórmula antecede cada selo (6.3, 5, 7, 9, 12; 8.1).

Os selos não são iniciados por Satanás, pelo Anticristo ou por forças históricas cegas. Eles são inaugurados pelo próprio Cordeiro, agindo em execução direta do plano judicial do Pai (cf. João 5.22). Assim, os selos são tanto atos de Deus quanto as trombetas e as taças que os seguem.

Rotular os seis primeiros selos como “ira do homem” ou “ira de Satanás” e apenas o sétimo selo como “ira de Deus” vai na contramão do texto. Instrumentalmente, Deus pode usar agentes humanos e satânicos, mas a atividade deles é secundária, não primária (cf. Isaías 10.5–15; Ezequiel 14.21; Romanos 13.1–4).

3.2. O Sexto Selo: “Chegou o Grande Dia da Ira Deles”

Apocalipse 6.12–17, o sexto selo, é decisivo:

“Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?”
Apocalipse 6.15–17

Alguns pontos precisam ser observados:

  1. As próprias pessoas interpretam os eventos como “a ira do Cordeiro”.

    • São reis, poderosos, comandantes—ímpios e hostis a Cristo. Contudo, até mesmo eles reconhecem a origem dos acontecimentos como sendo um juízo divino, não meramente algo natural ou satânico.
  2. A gramática indica que a ira já chegou.

    • O verbo “chegou” (ἦλθεν, ēlthen) está no aoristo indicativo. Em Apocalipse, João não usa essa construção para algo apenas prestes a acontecer. Em outros contextos, ela aponta claramente para chegada ou início passado.
    • A leitura mais simples é que o grande dia da ira já começou e agora está se desenrolando de modo culminante no sexto selo; não se trata apenas de algo iminente.
  3. O “grande dia da ira deles” não se limita a um único instante.

    • No uso profético, um “dia” (especialmente “o Dia do SENHOR”) pode abarcar um período prolongado no qual o juízo se desenrola (cf. Joel 2; 1 Tessalonicenses 5.2–3).
    • Assim, Apocalipse 6.17 é melhor entendido como um resumo dos selos como um todo—o dia da ira teve início com esses juízos, chegando agora a um clímax aterrador.

Se é o Cordeiro quem abre cada selo, e se o grande dia da ira Dele “chegou” em conexão com o sexto selo, é exegética e artificialmente forçado empurrar o início da ira de Deus para o sétimo selo. O próprio texto bíblico localiza a ira divina dentro da série dos selos, não apenas depois dela.


4. Selos, Trombetas e Taças: Um Único Fluxo Contínuo de Ira

O ensino pré‑ira insiste em separar rigidamente os selos das trombetas e das taças: selos = homem/Satanás; trombetas/taças = Deus. As Escrituras, porém, apresentam essas séries como uma sequência única e crescente de juízos divinos.

4.1. Mesma Origem: O Trono e o Cordeiro

  • Os selos são abertos pelo Cordeiro (Apocalipse 6).
  • As trombetas emergem da abertura do sétimo selo (Apocalipse 8.1–6); elas não são um programa independente, posterior.
  • As taças são derramadas como a consumação da ira de Deus (Apocalipse 15.1).

As três séries procedem do mesmo tribunal celeste (cf. Apocalipse 4–5), são anunciadas ou executadas por seres celestiais e carregam a simbologia veterotestamentária do Dia do SENHOR. Não há qualquer indicação textual de que elas transitem de “ira humana” para “ira divina” em algum ponto intermediário. Pelo contrário, representam ondas sucessivas e intensificadas de um mesmo programa judicial divino.

4.2. Fenômenos e Temas em Comum

  • Perturbações cósmicas acompanham o sexto selo (Apocalipse 6.12–14), a sétima trombeta (Apocalipse 11.15–19) e a sétima taça (Apocalipse 16.17–21).
  • A linguagem de “pragas”, “ira” e “juízo” percorre todo o bloco (Apocalipse 6–16).
  • Os próprios selos contêm instrumentos clássicos da maldição do pacto (espada, fome, peste, feras; cf. Ezequiel 14.21), que, no Antigo Testamento, são claramente apresentados como castigos de Deus, não de Satanás.

Afirmar que apenas o último quarto da semana de Daniel é “o Dia do SENHOR” e que os selos são algo categoricamente distinto contraria essa estrutura integrada e progressiva.


5. A Distinção entre a Ira de Satanás e a Ira de Deus

Os defensores da visão pré‑ira observam corretamente que Satanás tem ira (cf. Apocalipse 12.12) e que o Anticristo perseguirá os santos (Daniel 7.21, 25; Apocalipse 13.5–7). A partir disso, argumentam:

  • A Grande Tribulação (Mateus 24.21) é principalmente a ira de Satanás contra os santos, mediada pelo Anticristo.
  • O Dia do SENHOR é a ira de Deus, derramada sobre os incrédulos.
  • Portanto, a igreja pode estar presente sob a “ira de Satanás”, mas deve ser retirada antes da “ira de Deus”.

Essa distinção é insuficiente em vários aspectos.

5.1. Iras Concorrentes e Sobrepostas

A Escritura não ensina em lugar algum que a ira de Satanás e a ira de Deus sejam mutuamente exclusivas no tempo. Ao contrário, Deus frequentemente usa instrumentos ímpios para cumprir seus juízos, mesmo quando esses instrumentos agem com motivações pecaminosas (veja Habacuque 1–2; Isaías 10.5–12).

Na Tribulação, duas realidades ocorrem simultaneamente:

  1. Satanás e o Anticristo despejam sua fúria sobre o povo de Deus.
  2. Deus utiliza essas mesmas perseguições—bem como catástrofes ecológicas, cósmicas e militares—para julgar o mundo e disciplinar Israel.

Rotular um bloco de tempo como “apenas ira de Satanás” e outro bloco como “apenas ira de Deus” cria uma dicotomia artificial. A Bíblia apresenta o cenário do fim dos tempos como uma interação complexa entre a soberania divina e a atuação humana/satânica, não como “eras de ira” isoladas e não sobrepostas.

5.2. Crentes Também Sofrem sob Juízos Dirigidos por Deus

Ainda que se conceda que a perseguição do Anticristo seja satânica, a visão pré‑ira precisa explicar como os crentes supostamente estariam protegidos dos juízos de Deus antes do Arrebatamento, se esses juízos já estiverem ocorrendo em escala global.

Por exemplo:

  • No quarto selo, a quarta parte da terra é morta pela espada, pela fome, pela peste e por feras (Apocalipse 6.8).
  • No sexto selo, o abalo cósmico afeta “todo escravo e todo livre” (Apocalipse 6.15).

O texto não sugere em nenhum momento que os crentes da era da igreja presentes na terra sejam isentos desses efeitos. Para manter o esquema pré‑ira, seria necessário:

  • Negar que esses eventos sejam juízos de Deus (em contradição com Apocalipse 6.16–17), ou
  • Afirmar uma proteção universal e milagrosa de todos os crentes contra qualquer dano colateral—algo que Apocalipse nunca promete.

Em contraste, a promessa de Deus à igreja não é preservação dentro da ira, mas livramento da ira vindoura (1 Tessalonicenses 1.10; 5.9; Apocalipse 3.10).


6. A Igreja e a “Ira”: Promessas do Novo Testamento

Tabela de comparação das visões pré-ira e pré-semana setuagésima sobre quando a ira de Deus e o arrebatamento ocorrem.
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Tabela de comparação das visões pré-ira e pré-semana setuagésima sobre quando a ira de Deus e o arrebatamento ocorrem.
Uma infografia comparando a visão do arrebatamento pré-ira e a visão do arrebatamento pré-semana setenta, mostrando quando a ira de Deus começa através dos selos, trombetas e taças, e quando a igreja está na terra ou no céu.

A visão pré‑ira dá ênfase correta a textos como:

“e para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura.”
1 Tessalonicenses 1.10

“porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo.”
1 Tessalonicenses 5.9

“Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.”
Apocalipse 3.10

No entanto, por definir de maneira equivocada o início da ira, essa posição acaba localizando mal o Arrebatamento. Se a ira começa com os selos, então um Arrebatamento após o sexto selo não é “pré‑ira” em sentido bíblico. No máximo, é um arrebatamento em meio à ira.

Uma leitura consistente seria:

  • Se os crentes têm a promessa de livramento da ira vindoura.
  • E se essa ira já está em ação nos selos.
  • Então o Arrebatamento deve ocorrer antes do início dos juízos dos selos—isto é, antes que a série de juízos da septuagésima semana se desenrole.

Assim, as próprias passagens usadas pela visão pré‑ira para justificar um Arrebatamento tardio na Tribulação, quando lidas em conjunto com Apocalipse 6, na verdade apontam para um Arrebatamento antes da septuagésima semana (pré‑selos, pré‑tribulacional).


7. Conclusão

A visão do arrebatamento pré‑ira merece ser considerada com seriedade: ela afirma a autoridade das Escrituras, espera uma Tribulação futura e literal e procura honrar a promessa de que a igreja está isenta da ira divina. Mas sua alegação central—de que a ira de Deus não começa antes do término do sexto selo, e de que os selos iniciais seriam apenas “ira do homem” ou “ira de Satanás”—não resiste a um exame bíblico rigoroso.

  • É o Cordeiro quem abre cada selo.
  • O grande dia da ira de Deus “chegou” já no sexto selo (Apocalipse 6.17).
  • Selos, trombetas e taças formam um único fluxo contínuo de juízos iniciados por Deus.
  • A ira de Satanás e a ira de Deus ocorrem simultaneamente, não em eras rigidamente separadas.

Quando se permite que o texto fale em seus próprios termos, torna-se claro que o Dia da ira do SENHOR abrange toda a sequência de juízos iniciada com os selos. Portanto, se a igreja realmente tem a promessa de livramento da “ira vindoura” (1 Tessalonicenses 1.10; 5.9), o Arrebatamento deve preceder não apenas as trombetas e as taças, mas também os juízos dos selos.

À luz disso, o arrebatamento pré‑ira está indevidamente nomeado. Ele não ocorre, de fato, antes da ira; situa-se após o início da ira do Cordeiro. O exame da visão pré‑ira conduz, não à sua confirmação, mas a uma confiança renovada de que o propósito de Deus é remover a sua igreja antes de todo o derramamento da sua ira judicial na septuagésima semana—exatamente o que ensina um Arrebatamento pré‑tribulacional, anterior à septuagésima semana.

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Perguntas Frequentes

O que é a visão do Arrebatamento pré-ira?
A visão pré-ira, associada a Marvin Rosenthal e Robert Van Kampen, ensina que a igreja passará pela maior parte da Tribulação, mas será arrebatada após o sexto selo e antes da ira do “Dia do Senhor” (juízos das trombetas e taças). Assim, posiciona o Arrebatamento aproximadamente nos três quartos da 70ª semana de Daniel.
A ira de Deus começa apenas no sétimo selo?
Não. A Escritura mostra que o Cordeiro abre CADA selo (Apocalipse 5–6), tornando todos eles juízos divinos. No sexto selo, os habitantes da terra reconhecem: “chegou o grande dia da ira deles” (Ap 6.17). A ira já chegou; não está apenas para começar no sétimo selo.

L. A. C.

Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.

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