Gogue e Magogue
1. Introdução
A profecia de Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39 é um dos textos mais detalhados e estrategicamente importantes na escatologia bíblica. Ela descreve uma futura e gigantesca invasão de Israel por uma confederação de nações do norte, liderada por uma figura misteriosa chamada Gogue, e a destruição sobrenatural dessa força por intervenção direta de Deus. Compreender essa profecia exige atenção cuidadosa aos seus principais atores, à geografia, ao momento profético, aos motivos envolvidos e ao seu propósito teológico.
Este artigo oferece uma visão geral concentrada e essencial da profecia de Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39, reunindo os principais dados bíblicos e as conclusões interpretativas mais relevantes.
2. Quem são Gogue e Magogue?
2.1 Gogue: O Líder
Em Ezequiel 38–39, Gogue não é uma nação, mas uma pessoa ou título — o líder da coalizão de fim dos tempos que ataca Israel:
“Filho do homem, dirija o rosto contra Gogue, da terra de Magogue, príncipe de Rosh, de Meseque e de Tubal…”
— Ezequiel 38:2
Pontos-chave:
- Gogue é chamado de “príncipe” (Ez 38:2, 3; 39:1), indicando um governante político-militar.
- O nome provavelmente funciona como um título, comparável a “Faraó” ou “César”, mais do que um nome pessoal.
- Gogue é explicitamente distinto do Anticristo. Gogue lidera uma coalizão do norte, em grande parte não ocidental; o Anticristo lidera um império romano revivido (ocidental).
A raiz hebraica por trás de “Gogue” carrega a ideia de “altura” ou “exaltado”, sugerindo um líder orgulhoso e dominante, que atrai a atenção mundial quando se volta contra Israel.
2.2 Magogue e o Bloco do Norte
Gogue é descrito como “da terra de Magogue” e “príncipe de Rosh, Meseque e Tubal” (Ez 38:2–3). Esses nomes se referem a regiões geográficas conhecidas nos dias de Ezequiel.
Com base em dados históricos, linguísticos e geográficos, a maioria dos intérpretes conservadores entende a coalizão central da seguinte forma:
| Nome Antigo (Ezequiel 38–39) | Provável Região Moderna |
|---|---|
| Magogue | Ásia Central ao norte de Israel (sul da antiga URSS) |
| Rosh | Rússia (nos “confins do norte”, 39:2) |
| Meseque, Tubal | Turquia moderna (e possivelmente áreas adjacentes) |
| Pérsia | Irã moderno |
| Cuxe (Etiópia) | Sudão (ao sul do Egito) |
| Pute (Líbia) | Líbia (possivelmente incluindo partes de Argélia/Tunísia) |
| Gômer, Bete-Togarma | Turquia / Armênia / leste da Anatólia |
A ênfase repetida de que Gogue vem dos “confins do norte” (Ez 38:6, 15; 39:2) é decisiva. Num mapa centrado em Israel, a massa de terra mais distante ao norte é a Rússia, tornando-a o foco natural dessa confederação do norte.
3. As Nações na Coalizão de Gogue e Magogue

Ezequiel lista os principais aliados de Gogue em Ezequiel 38:5–6:
“Pérsia, Cuxe e Pute com eles, todos com escudo e capacete; Gômer e todas as suas tropas; a casa de Togarma, do extremo norte, com todas as suas tropas — muitos povos contigo.”
— Ezequiel 38:5–6
Pontos essenciais sobre essas nações da coalizão:
- Pérsia: Claramente o Irã moderno, que passou a usar esse nome internacionalmente em 1935.
- Cuxe (Etiópia): Nos dias de Ezequiel, a região ao sul do Egito, correspondente ao Sudão moderno, hoje um estado fortemente islâmico.
- Pute (Líbia): A oeste do Egito; a Líbia no sentido antigo, provavelmente incluindo partes da Argélia e Tunísia.
- Gômer & Bete-Togarma: Associados a antigos povos cimérios e anatólios; geograficamente alinhados com a Turquia moderna e região circundante.
Algumas características se destacam:
- Essas nações cercam Israel em todas as direções — norte (Rússia/Turquia), leste (Irã), oeste (Líbia) e sul (Sudão).
- Em nossa época, são predominantemente muçulmanas, compartilhando uma profunda hostilidade ideológica e religiosa em relação a Israel.
- Ezequiel acrescenta a expressão “e muitos povos contigo” (38:6, 9, 15), permitindo a inclusão de participantes adicionais não nomeados.
De modo significativo, alguns vizinhos árabes mais próximos de Israel (por exemplo, Egito, Jordânia, Síria) não são mencionados explicitamente, sugerindo que podem estar neutros, envolvidos em outros acordos políticos ou incluídos no grupo dos “muitos povos”.
4. Quando Ocorre a Invasão de Gogue e Magogue?
4.1 Marcadores de Tempo em Ezequiel 38–39
Ezequiel fornece alguns indicadores cronológicos-chave:
-
“Depois de muitos dias… nos últimos anos”
“…depois de muitos dias serás visitado. No fim dos anos, virás à terra que se recuperou da espada, cujos habitantes, tendo sido reunidos dentre muitos povos…”
— Ezequiel 38:8 -
“Nos últimos dias”
“…virás contra o meu povo de Israel… Acontecerá, porém, nos últimos dias que trarei você contra a minha terra…”
— Ezequiel 38:16
Essas expressões apontam para a fase final da história de Israel, não para um evento já cumprido na Antiguidade.
-
Israel congregado de muitas nações
Israel é descrito como:- “reunido dentre muitos povos” (38:8, 12),
- de volta “aos montes de Israel, que sempre estiveram em ruínas” (38:8).
Isso corresponde apenas ao reajuntamento moderno dos judeus de todas as partes do mundo, especialmente desde 1948, e não a retornos anteriores a partir de um único império, como o cativeiro babilônico.
-
Israel habitando em segurança
Gogue ataca:
“…uma terra de cidades indefesas… um povo que vive em segurança, todos habitando sem muralhas, e sem ferrolhos nem portas…”
— Ezequiel 38:11Israel é retratado como confiante e relativamente despreocupado, não como um povo vivendo sob constante cerco.
4.2 Melhor Colocação no Quadro Escatológico
Dentro de uma leitura futurista e pré-milenista, a colocação mais coerente para a guerra de Gogue e Magogue de Ezequiel 38–39 é:
- Após o reajuntamento moderno de Israel (já em curso),
- Após o Arrebatamento da igreja,
- Durante a fase inicial da 70ª semana de Daniel (a Tribulação) — muito provavelmente na primeira metade, quando Israel desfruta de um sentimento intensificado de segurança sob uma aliança com o futuro Anticristo (cf. Daniel 9:27).
Essa colocação integra melhor:
- A condição segura de Israel,
- Os períodos futuros e completos de sepultamento e queima (sete meses de sepultamento, sete anos de queima de armas; Ez 39:9–14),
- E o vácuo geopolítico criado para a ascensão de um Anticristo global após a remoção súbita da Rússia e de seus aliados islâmicos.
O episódio de Gogue e Magogue em Apocalipse 20:7–9 ocorre após o Milênio e difere em escopo, liderança (Satanás diretamente) e desfecho. O uso comum dos nomes é tipológico — o “Gogue e Magogue” posterior é como dizer “um novo Waterloo”: uma rebelião final, arquetípica, destinada a uma derrota catastrófica.
5. Por que Gogue e Magogue Atacam Israel?
Os motivos de Gogue e de sua coalizão são ao mesmo tempo humanos e divinos.
5.1 Motivos Humanos
Ezequiel lista vários motivos explícitos:
-
Ganância e pilhagem
“…para tomar despojo e arrebatar presa, para pôr a mão sobre as ruínas habitadas e sobre o povo que se congregou dentre as nações, que adquiriu gado e bens…”
— Ezequiel 38:12Israel possuirá grandes riquezas — agrícolas, industriais, minerais (inclusive as vastas reservas minerais do Mar Morto) e, possivelmente, recursos energéticos. A coalizão cobiça essa riqueza.
-
Ódio a Israel
Gogue concebe um “mau desígnio” (38:10), tendo como alvo o povo da aliança de Deus:
“Virás contra o meu povo de Israel…”
— Ezequiel 38:16Isso reflete um profundo impulso antissemita e antissionista, intensificado nos últimos dias por ideologias políticas e religiosas.
-
Jogada estratégica de poder
Israel está situado no “meio da terra” (Ez 38:12, lit. “umbigo da terra”), uma ponte de terra entre continentes. Controlar Israel significa controlar rotas terrestres e grande parte da configuração política do Oriente Médio, inclusive corredores energéticos próximos.
-
Desafio a outras potências mundiais
O ataque contra Israel também funciona como um desafio geopolítico à estrutura de poder ocidental ou romano revivida que estiver apoiando Israel naquele período, preparando o cenário para um choque entre grandes blocos de poder.
5.2 Motivo Divino
Por trás da estratégia humana está o propósito soberano de Deus:
“Eu o farei vir contra a minha terra, para que as nações me conheçam, quando eu manifestar a minha santidade em você, ó Gogue, diante dos olhos delas.”
— Ezequiel 38:16
Deus atrai Gogue (“porei anzóis nos teus queixos”, 38:4) a fim de:
- Manifestar Sua santidade, poder e fidelidade,
- Vindicar o Seu nome diante de Israel e das nações,
- Conduzir Israel rumo a um despertamento espiritual.
6. Como Deus Destrói Gogue e Magogue
A destruição do exército de Gogue é totalmente sobrenatural e unilateral — Israel não vence pela sua própria força. Deus age diretamente em um juízo quádruplo (Ez 38:18–39:6):
6.1 Um Grande Terremoto
“Haverá um grande terremoto na terra de Israel… os montes serão derribados, as rochas desmoronarão, e todos os muros cairão por terra.”
— Ezequiel 38:19–20
Isso paralisa as forças invasoras, destrói infraestrutura e causa caos em toda a região e além.
6.2 Luta Interna Entre os Invasores
“A espada de cada um será contra o seu irmão.”
— Ezequiel 38:21
Na confusão, os exércitos da coalizão se voltam uns contra os outros, possivelmente por causa de:
- Barreiras de idioma e falhas de comunicação,
- Suspeita de traição entre aliados tão diversos,
- Pânico após o terremoto e os juízos subsequentes.
6.3 Peste
“Com pestilência e sangue entrarei em juízo com ele…”
— Ezequiel 38:22a
Corpos insepultos, logística desorganizada e colapso ambiental levam a surtos mortais de doenças, dizimando ainda mais os exércitos.
6.4 Chuva Torrencial, Granizo, Fogo e Enxofre
“Farei cair chuva torrencial, grandes pedras de granizo, fogo e enxofre sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele.”
— Ezequiel 38:22b
Essa fase final pode incluir:
- Tempestades e enchentes catastróficas,
- Pedras de granizo devastando tropas e equipamentos,
- Fogo e enxofre, sugerindo erupções vulcânicas ou outros abalos geofísicos — possivelmente também envolvendo armamento humano sob direção soberana de Deus.
Além disso, Deus envia fogo sobre Magogue e sobre os que habitam seguros nas ilhas (Ez 39:6), atingindo alvos nas terras de origem da coalizão e garantindo que não haja capacidade imediata de uma nova agressão.
7. Consequências: Sepultamento, Queima e Impacto Espiritual
7.1 Sepultamento dos Mortos

O massacre é tão vasto que:
- São necessários sete meses para sepultar os mortos (Ez 39:12).
- Um vale específico, “Vale de Hamom-Gogue” (“multidão de Gogue”), torna-se uma vala comum em Israel (39:11, 15).
- Equipes especiais são designadas para procurar e marcar ossadas, que outros depois enterram (39:14–15).
Esse processo prolongado de sepultamento “purifica a terra” cerimonialmente e proclama, de modo visível, a completude da vitória de Deus.
7.2 Queima das Armas
“Os habitantes das cidades de Israel sairão e acenderão fogo com as armas… Sete anos as queimarão.”
— Ezequiel 39:9–10
Por sete anos, Israel usará as armas capturadas como combustível, destacando ainda mais a dimensão do exército derrotado e o cuidado providencial de Deus. Esse período de sete anos sugere fortemente uma colocação temporal em que:
- A queima começa antes ou no início da Tribulação,
- E continua ao longo desse período sem contradizer a fuga de Israel na metade da Tribulação (cf. Mateus 24:15–21).
7.3 Reconhecimento Mundial de Deus
O propósito divino da catástrofe de Gogue e Magogue é declarado de forma explícita:
“Assim, manifestarei a minha grandeza e a minha santidade, e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações. Então saberão que eu sou o SENHOR.”
— Ezequiel 38:23
“Porei a minha glória entre as nações, e todas as nações verão o meu juízo, que eu tiver executado… A casa de Israel saberá que eu sou o SENHOR, seu Deus, daquele dia em diante.”
— Ezequiel 39:21–22
Os resultados incluem:
- Consciência global de que a sobrevivência de Israel se deve ao Deus das Escrituras, e não a alianças humanas.
- Um impulso poderoso rumo a um despertamento espiritual em Israel, à medida que Deus começa a remover a cegueira espiritual do povo e o prepara para a plena restauração nacional prometida nos capítulos seguintes (Ez 40–48).
8. Conclusão
A profecia de Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39 apresenta um cenário futuro coerente no qual:
- Uma coalizão do norte liderada pela Rússia e fortemente composta por nações muçulmanas lança uma invasão maciça contra um Israel reajuntado e em aparente segurança.
- O próprio Deus intervém com um juízo sem precedentes — terremoto, confusão interna, peste e tempestades destruidoras — para aniquilar os invasores.
- O pós-guerra — sete meses de sepultamento e sete anos de queima de armas — exibe de forma visível a escala da vitória divina.
- O objetivo final não é apenas a sobrevivência de Israel, mas a vindicação do nome de Deus, a reconfiguração das estruturas de poder mundiais e o avanço do Seu plano redentivo rumo ao reino messiânico.
Para estudantes de escatologia bíblica, Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39 permanecem como um lembrete vívido de que a história caminha para um clímax ordenado por Deus, no qual Seus propósitos para Israel e para as nações serão cumpridos de forma inconfundível.
FAQ
P: A guerra de Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39 é a mesma batalha de Apocalipse 20?
Não. Embora ambos os textos usem os termos “Gogue e Magogue”, eles diferem em tempo, escopo e liderança. A guerra em Ezequiel ocorre nos últimos dias, antes do Milênio, liderada por um governante humano chamado Gogue. Apocalipse 20 descreve uma rebelião final após o Milênio, liderada diretamente por Satanás. O uso comum dos nomes é tipológico, como chamar uma derrota posterior de “outro Waterloo”.
P: Como sabemos que Gogue e Magogue se referem à Rússia e seus aliados?
A identificação se baseia em várias linhas de evidência: a expressão “confins do norte” em relação a Israel, referências históricas a povos como Magogue e Rosh em regiões ao norte dos mares Negro e Cáspio, e o alinhamento geopolítico moderno das nações nomeadas por Ezequiel. Quando essas localidades são colocadas em um mapa atual, correspondem de forma notável a Rússia, Turquia, Irã, Líbia, Sudão e estados da Ásia Central.
P: A profecia de Gogue e Magogue já foi cumprida na história?
Não. Nunca houve uma invasão histórica de Israel que correspondesse a todas as características de Ezequiel 38–39: as nações específicas listadas, a condição de Israel como reajuntado de muitos países, o seu habitar em segurança e os juízos sobrenaturais únicos usados por Deus. A profecia permanece futura.
P: Qual é o principal propósito da profecia de Gogue e Magogue?
O propósito principal é teológico: vindicar a santidade de Deus, exibir o Seu poder e tornar o Seu nome conhecido em Israel e entre as nações (Ez 38:16, 23; 39:7, 21–22). A destruição de Gogue e Magogue demonstra que nenhuma coalizão — por maior que seja — pode frustrar os propósitos de aliança de Deus para Israel.
P: Como os cristãos hoje devem responder à profecia de Gogue e Magogue?
A profecia de Gogue e Magogue deve levar os crentes a confiar na soberania de Deus, reconhecer a confiabilidade da profecia bíblica e observar os alinhamentos atuais no Oriente Médio por meio de uma perspectiva bíblica, sem marcar datas. Ela destaca que Deus controla a história e, no tempo determinado, vindicará a Sua Palavra, o Seu povo e o Seu Filho diante de todas as nações.
Perguntas Frequentes
A guerra de Gogue e Magogue em Ezequiel 38–39 é a mesma batalha de Apocalipse 20?
Como sabemos que Gogue e Magogue se referem à Rússia e seus aliados?
A profecia de Gogue e Magogue já foi cumprida na história?
Qual é o principal propósito da profecia de Gogue e Magogue?
Como os cristãos hoje devem responder à profecia de Gogue e Magogue?
L. A. C.
Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.
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