O que é o Período da Tribulação?

Escatologia13 min de leitura

1. Introdução

O período da tribulação é um tema central na escatologia bíblica e nas profecias sobre o fim dos tempos. A Escritura o apresenta como um período futuro, único, de sete anos, de intensa angústia e juízo divino que precede imediatamente a segunda vinda de Cristo e o estabelecimento de Seu reino milenar. Compreender o que é a tribulação, quanto tempo dura e por que Deus a determinou é essencial para entender o quadro profético geral da Bíblia.

Este artigo oferece uma definição objetiva e uma visão geral do período da tribulação em termos claros, acadêmicos e solidamente fundamentados nas Escrituras.

2. Definição do Período da Tribulação

No Novo Testamento, a palavra traduzida como “tribulação” (grego thlipsis) significa, em geral, pressão, aflição ou angústia. Jesus a aplica em um sentido profético e técnico a um tempo futuro sem paralelo:

“Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais.”
Mateus 24:21

Do ponto de vista bíblico‑profético, o período da tribulação pode ser definido como:

Um período futuro de sete anos em que Deus derrama Sua ira em juízos de alcance mundial, leva Israel ao arrependimento, julga as nações incrédulas e prepara o mundo para o retorno visível e o reino de Jesus Cristo.

Características principais desse período incluem:

  • É futuro, não passado nem meramente simbólico (cf. Mt 24.21–30; Ap 3.10).
  • É universal em seu alcance — “prova… que há de vir sobre o mundo inteiro” (Ap 3.10).
  • É singularmente severo — nenhum outro tempo na história é comparável (Dn 12.1; Mt 24.21).
  • Está explicitamente ligado ao dia do SENHOR, à ira de Deus e à ira do Cordeiro (Sf 1.14–18; Ap 6.16–17).

Assim, o período da tribulação não é simplesmente “tempos difíceis” para os crentes em geral, mas uma era escatológica distinta, de intervenção divina climática na história humana.

3. Duração e Cronologia da Tribulação

3.1 A “Septuagésima Semana” de Daniel (sete anos)

O principal fundamento bíblico para a duração da tribulação é a profecia das setenta semanas de Daniel (Dn 9.24–27). Daniel fala de “setenta semanas” (literalmente, “setenta setes”) determinadas sobre Israel e sobre Jerusalém. Esses “setes” são melhor entendidos como semanas de anos, de modo que 70 × 7 = 490 anos.

  • As primeiras 69 “semanas” (483 anos) se estendem “desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe” (Dn 9.25).
  • Depois das 69 semanas, o Messias é “morto” e Jerusalém é destruída (Dn 9.26), eventos cumpridos no primeiro século.
  • Resta, então, uma última “semana” (a septuagésima semana) ainda não cumprida na história.

Essa última “semana” é descrita em Daniel 9.27:

“Ele fará firme aliança com muitos, por uma semana; na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações virá o assolador…”
Daniel 9.27

Essa “uma semana” é um período de sete anos, dividido em duas metades de três anos e meio cada. Essa septuagésima semana de Daniel, com duração de sete anos, é o que a revelação posterior chama de período da tribulação.

3.2 Três anos e meio, quarenta e dois meses, 1.260 dias

Vários textos proféticos especificam ainda a estrutura interna desse período, usando referências de tempo equivalentes:

ExpressãoDuraçãoReferências
“um tempo, dois tempos e metade de um tempo”3½ “tempos”Dn 7.25; 12.7; Ap 12.14
“quarenta e dois meses”3½ anosAp 11.2; 13.5
“mil duzentos e sessenta dias”3½ anos (meses de 30 dias)Ap 11.3; 12.6

Essas designações repetidas confirmam que os sete anos da tribulação consistem em duas metades iguais de três anos e meio, retratadas em Apocalipse 6–19 por meio dos juízos dos selos, das trombetas e das taças.

3.3 Início e fim do Período da Tribulação

Biblicamente, o período da tribulação começa e termina em eventos proféticos claramente marcados:

  • Início: A tribulação começa quando um futuro governante mundial (o “príncipe que há de vir”, geralmente identificado como o Anticristo) “fizer firme aliança com muitos, por uma semana” (Dn 9.27). Essa aliança com Israel marca o início oficial da septuagésima semana.
  • Fim: A tribulação termina com a segunda vinda de Cristo em glória, imediatamente “depois da tribulação daqueles dias” (Mt 24.29–31), quando Ele volta para julgar e estabelecer Seu reino.

Do pacto até a segunda vinda, o período da tribulação dura sete anos fixos — nem mais, nem menos.

4. Nomes e Terminologia para a Tribulação

A Escritura usa diversos títulos e imagens para descrever esse período, cada um destacando um aspecto específico de seu caráter.

4.1 Termos do Antigo Testamento

Expressões importantes do Antigo Testamento que se referem a essa futura tribulação incluem:

  • “O dia do SENHOR” (Jl 1.15; 2.1; Sf 1.14–15): Tempo de intervenção divina em juízo.
  • “Tempo de angústia para Jacó” (Jr 30.7): Enfatiza a angústia particular de Israel.
  • “Tempo de angústia” (Dn 12.1): “Qual nunca houve, desde que houve nação até aquele tempo.”
  • “Dia da vingança” (Is 34.8; 61.2).
  • “Dia da ira” / “dia da ira do SENHOR” (Sf 1.15, 18).
  • “Dores de parto” (Is 26.17–18; Jr 30.6–7; Mq 4.10): Indicando uma intensidade crescente que culmina no “nascimento” do reino.

Esses termos do Antigo Testamento, em conjunto, retratam a tribulação como o dia culminante de juízo e purificação de Deus, em preparação para a bênção messiânica.

4.2 Termos do Novo Testamento

O Novo Testamento mantém e aprofunda essa terminologia:

  • “A tribulação” (Mt 24.29; Mc 13.24).
  • “Grande tribulação” (Mt 24.21; Ap 7.14).
  • “O dia do Senhor” (1Ts 5.2; 2Ts 2.2).
  • “A ira vindoura” (1Ts 1.10).
  • “A ira” (1Ts 5.9; Ap 11.18).
  • “O grande dia da ira deles” (Ap 6.17).
  • “A hora da provação… que há de vir sobre o mundo inteiro” (Ap 3.10).
  • “A hora do seu juízo” (Ap 14.7).
  • “Dores de parto” (Mt 24.8; 1Ts 5.3).

Cada designação reforça que a tribulação é, ao mesmo tempo, ira de Deus e provação global dos habitantes da terra, e não apenas perseguição localizada.

5. Tribulação e Grande Tribulação: Distinção Dentro dos Sete Anos

Dentro do período de sete anos da tribulação, Jesus faz uma distinção interna explícita. Em Mateus 24, Ele descreve eventos que abrangem toda a septuagésima semana e, então, marca um ponto de virada crítico:

  1. Primeira metade (tribulação em geral):

    • Guerras, fomes, terremotos (“o princípio das dores”, Mt 24.4–8).
    • Crescente perseguição e apostasia (Mt 24.9–12).
    • Proclamação mundial de “este evangelho do reino” (Mt 24.14).
  2. Crise do meio da semana:

    • A “abominação da desolação” no “lugar santo”, em harmonia com Dn 9.27 (Mt 24.15). Trata‑se da intrusão autodeificadora do Anticristo em um templo reconstruído.
  3. Segunda metade (a Grande Tribulação):

    • “Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais” (Mt 24.21).

Com base nisso, muitos intérpretes usam a seguinte terminologia:

  • “Tribulação” – o período completo de sete anos (a septuagésima semana de Daniel).
  • “Grande Tribulação” – os três anos e meio finais, iniciados pela abominação da desolação, marcados pelos juízos e perseguições mais intensos.

O livro de Apocalipse se harmoniza com essa estrutura ao enfatizar a intensificação da ira divina e da atividade satânica na segunda metade (por exemplo, Ap 12.12; 13.5–7; 16).

6. Propósitos Bíblicos da Tribulação

Além da cronologia, a Escritura revela por que Deus determinou o período da tribulação. Vários propósitos divinos interligados emergem.

6.1 Julgar um Mundo que Rejeita Cristo

A tribulação é, fundamentalmente, um período de juízo divino sobre a incredulidade global persistente e a maldade. É:

  • “O dia da ira do SENHOR” (Sf 1.18).
  • “A ira do Cordeiro” (Ap 6.16).
  • “Hora da provação… para provar os que habitam sobre a terra” (Ap 3.10).

Apocalipse apresenta esse juízo por meio de selos, trombetas e taças sucessivos (Ap 6–16), que vão devastando progressivamente o meio ambiente, a economia e a população do mundo. Mesmo sob tais juízos, a humanidade endurecida, em grande parte, recusa‑se a arrepender‑se (Ap 9.20–21; 16.9–11), ressaltando a necessidade moral da retribuição de Deus.

6.2 Levar Israel ao Arrependimento e à Restauração

Um propósito central da tribulação é o trato de Deus com Israel como nação:

  • É o “tempo de angústia para Jacó; mas ele será livre dela” (Jr 30.7).
  • Daniel fala de um futuro “tempo de angústia” para Israel, ligado à libertação “do teu povo” (Dn 12.1).
  • Zacarias prevê um futuro derramamento de graça “sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém”, de modo que “olharão para mim, a quem traspassaram” e prantearão em arrependimento (Zc 12.10).

Por meio do fogo da tribulação, Deus purificará e refinará Israel (cf. Zc 13.8–9), quebrando séculos de incredulidade nacional. Ao final desse período, um remanescente crente de Israel reconhecerá Jesus como Messias, cumprindo Romanos 11.26–27: “E assim todo o Israel será salvo”.

6.3 Encerrar o Domínio Gentílico e Preparar o Reino Messiânico

A tribulação também encerra “os tempos dos gentios” (cf. Lc 21.24), o longo período em que Jerusalém é pisada por potências gentílicas. Ao final da tribulação:

  • Os impérios mundiais gentios serão julgados e destruídos (Dn 2.44; Ap 19.11–21).
  • Os sistemas políticos e religiosos do mundo serão desmantelados para dar lugar ao governo justo de Cristo a partir de Jerusalém no Milênio (Is 2.2–4; Zc 14.9, 16).

Nesse sentido, a tribulação funciona como uma transição entre a era presente e a era do reino milenar.

6.4 Revelar a Glória de Deus e Vindicar Sua Justiça

Ao longo da história, governantes humanos têm desafiado a autoridade de Deus. A pergunta de Faraó, “Quem é o SENHOR, para que eu lhe ouça a voz…?” (Êx 5.2) antecipa a arrogância do Anticristo do fim dos tempos, que “se exalta e se levanta contra tudo o que se chama Deus… a ponto de assentar‑se no santuário de Deus, ostentando‑se como se fosse o próprio Deus” (2Ts 2.4).

Deus usará a tribulação para:

  • Vindicar publicamente Sua santidade e justiça (cf. Ap 15.3–4).
  • Demonstrar Sua soberania absoluta sobre a criação e a história.
  • Silenciar todas as pretensões blasfemas de deuses rivais e de usurpadores humanos.

Como nas pragas do Êxodo, mas em escala global, os juízos da tribulação mostrarão que “só o SENHOR será exaltado naquele dia” (Is 2.11).

6.5 Desmascarar o Verdadeiro Caráter de Satanás

Com a mão restritiva da providência de Deus parcialmente removida (2Ts 2.6–8), Satanás terá uma influência sem precedentes durante a tribulação:

  • Ele dá poder à besta (Anticristo) e ao falso profeta (Ap 13.2, 11).
  • Ele persegue Israel e os santos com grande furor, “sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12.12–17).

Esse período exporá, em toda a sua extensão, o ódio, a crueldade e o engano do diabo, vindicando o juízo final de Deus sobre ele (Ap 20.10).

6.6 Produzir uma Grande Colheita de Salvação

Paradoxalmente, em meio a juízos severos, a tribulação também será um tempo de evangelização intensa e vasta conversão:

  • Apocalipse descreve “uma grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações… Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7.9, 14).
  • O evangelho do reino será pregado “em todo o mundo, para testemunho a todas as nações” (Mt 24.14).

Muitos — judeus e gentios — virão à fé salvadora durante esse período, ainda que isso, muitas vezes, resulte em martírio (Ap 6.9–11; 20.4). Assim, a tribulação é não apenas juízo, mas também um último e abrangente chamado global ao arrependimento e à fé em Cristo.

7. Conclusão

Na escatologia bíblica, o período da tribulação é um intervalo futuro bem definido de sete anos — a septuagésima semana de Daniel — durante o qual Deus conduz a história ao seu clímax. Ele é:

  • Singularmente severo: “como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais” (Mt 24.21).
  • Precisamente delimitado: sete anos exatos, divididos em duas metades de três anos e meio, culminando na segunda vinda de Cristo (Dn 9.27; Ap 11.2–3; 13.5; Mt 24.29–31).
  • Pleno de propósito: destinado a julgar um mundo rebelde, refinar e restaurar Israel, encerrar a dominação gentílica, desmascarar Satanás, exibir a glória de Deus e reunir uma vasta multidão de remidos.

Longe de ser um conceito abstrato ou puramente simbólico, o período da tribulação é uma fase estruturada e intencional no plano redentor de Deus, que prepara o caminho para o reino visível de Jesus Cristo na terra.

FAQ

P: O que é o período da tribulação na Bíblia?

O período da tribulação é um intervalo futuro de sete anos imediatamente anterior à segunda vinda de Cristo, durante o qual Deus derramará juízos sem precedentes sobre um mundo rebelde, levará Israel ao arrependimento e preparará a terra para o reino de Cristo. Ele se baseia principalmente na septuagésima semana de Daniel (Dn 9.24–27) e é descrito em detalhes em Mateus 24–25 e Apocalipse 6–19.

P: Quanto tempo durará a tribulação?

De acordo com Daniel 9.27 e passagens correlatas, a tribulação dura sete anos, frequentemente chamados de septuagésima semana de Daniel. Esse período é dividido em duas metades de três anos e meio cada, expressas na Escritura como “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”, “quarenta e dois meses” ou “mil duzentos e sessenta dias” (Dn 7.25; Ap 11.2–3; 13.5).

P: Qual é a diferença entre a tribulação e a Grande Tribulação?

O termo tribulação pode referir‑se a todo o período de sete anos, enquanto Grande Tribulação geralmente designa os três anos e meio finais, após a abominação da desolação no templo. Jesus declarou: “Porque nesse tempo haverá grande tribulação” (Mt 24.21), marcando uma intensificação dos juízos e da perseguição na segunda metade desses sete anos.

P: Qual é o principal propósito do período da tribulação?

Biblicamente, a tribulação serve a vários propósitos interligados: julgar um mundo que rejeita Cristo, levar Israel ao arrependimento nacional e à restauração, encerrar a dominação gentílica, manifestar a santidade e a soberania de Deus, desmascarar o verdadeiro caráter de Satanás e trazer uma grande multidão à salvação antes do retorno de Cristo.

P: A tribulação é o mesmo que o sofrimento geral que os cristãos experimentam hoje?

Não. A Escritura ensina que os crentes enfrentarão tribulações em sentido geral nesta era (Jo 16.33; At 14.22), mas o período da tribulação é uma era distinta, futura, delimitada no tempo, de juízo e angústia mundiais sem paralelo. Jesus e Daniel enfatizam que a gravidade e o alcance desse período serão diferentes de tudo o que já houve ou haverá (Dn 12.1; Mt 24.21–22).

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Perguntas Frequentes

O que é o período da tribulação na Bíblia?
O período da tribulação é um intervalo futuro de sete anos imediatamente anterior à segunda vinda de Cristo, durante o qual Deus derramará juízos sem precedentes sobre um mundo rebelde, levará Israel ao arrependimento e preparará a terra para o reino de Cristo. Ele se baseia principalmente na septuagésima semana de Daniel (*Dn 9.24–27*) e é descrito em detalhes em *Mateus 24–25* e *Apocalipse 6–19*.
Quanto tempo durará a tribulação?
De acordo com *Daniel 9.27* e passagens correlatas, a tribulação dura **sete anos**, frequentemente chamados de septuagésima semana de Daniel. Esse período é dividido em **duas metades** de três anos e meio cada, expressas na Escritura como “um tempo, dois tempos e metade de um tempo”, “quarenta e dois meses” ou “mil duzentos e sessenta dias” (*Dn 7.25; Ap 11.2–3; 13.5*).
Qual é a diferença entre a tribulação e a Grande Tribulação?
O termo **tribulação** pode referir‑se a todo o período de sete anos, enquanto **Grande Tribulação** geralmente designa os **três anos e meio finais**, após a abominação da desolação no templo. Jesus declarou: “Porque nesse tempo haverá grande tribulação” (*Mt 24.21*), marcando uma intensificação dos juízos e da perseguição na segunda metade desses sete anos.
Qual é o principal propósito do período da tribulação?
Biblicamente, a tribulação serve a vários propósitos interligados: julgar um mundo que rejeita Cristo, levar Israel ao arrependimento nacional e à restauração, encerrar a dominação gentílica, manifestar a santidade e a soberania de Deus, desmascarar o verdadeiro caráter de Satanás e trazer uma grande multidão à salvação antes do retorno de Cristo.
A tribulação é o mesmo que o sofrimento geral que os cristãos experimentam hoje?
Não. A Escritura ensina que os crentes enfrentarão tribulações em sentido geral nesta era (*Jo 16.33; At 14.22*), mas o **período da tribulação** é uma **era distinta, futura, delimitada no tempo**, de juízo e angústia mundiais sem paralelo. Jesus e Daniel enfatizam que a gravidade e o alcance desse período serão diferentes de tudo o que já houve ou haverá (*Dn 12.1; Mt 24.21–22*).

L. A. C.

Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.

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