O Pós-milenismo em Análise: A Igreja Vai Cristianizar o Mundo?
1. Introdução
O pós-milenismo afirma que a igreja, capacitada pelo Espírito Santo e pela pregação do evangelho, irá progressivamente cristianizar o mundo antes do retorno de Cristo. A partir de uma leitura gramatical-histórica e premilenista das Escrituras, essa visão é atraente, mas, em última análise, insustentável biblicamente.
Este artigo irá (1) definir o pós-milenismo, (2) resumir seus principais argumentos bíblicos e (3) oferecer uma crítica concisa, fundamentada nas Escrituras — com foco na pergunta se a igreja de fato introduzirá uma era dourada antes da segunda vinda de Cristo.
2. O Que é Pós-milenismo?

O pós-milenismo ensina que:
- O “Milênio” de Apocalipse 20 é um longo período simbólico, não mil anos literais.
- Esse período corresponde, em linhas gerais, à era da igreja, ou pelo menos à sua fase final, uma “era dourada”.
- Durante esse tempo, o evangelho triunfará de tal forma que:
- A maior parte da população mundial se tornará cristã.
- A ética cristã moldará a legislação, a cultura, a economia e a política.
- Paz, justiça e prosperidade se tornarão a norma global.
- Cristo volta depois (“pós”) desse período milenar para:
- Ressuscitar todos os mortos (ressurreição geral).
- Conduzir um juízo geral.
- Inaugurar o estado eterno (novos céus e nova terra).
Como Loraine Boettner definiu de maneira clássica:
“…o mundo será, em última análise, cristianizado, e … o retorno de Cristo ocorrerá ao final de um longo período de justiça e paz, comumente chamado de ‘Milênio’.”
Historicamente, o pós-milenismo:
- Foi quase inexistente na igreja primitiva, que era, em sua grande maioria, premilenista.
- Ganhou destaque especialmente nos séculos 18 e 19, em meio ao otimismo do Iluminismo, ao progresso científico, à expansão colonial e ao avanço missionário.
- Sofreu um declínio acentuado após a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, quando os eventos globais contradisseram seu otimismo.
- Tem experimentado um ressurgimento limitado nas últimas décadas, por meio de movimentos como a teonomia / reconstrução cristã, algumas formas de teologia do domínio e certos segmentos da teologia reformada.
3. Principais Argumentos Bíblicos Usados por Pós-milenistas
Os pós-milenistas apelam para diversos fios condutores bíblicos para sustentar a ideia de que a igreja cristianizará o mundo antes do retorno de Cristo.
3.1. A Grande Comissão e o Sucesso Mundial do Evangelho
Pós-milenistas argumentam que Mateus 28.18‑20 e Mateus 24.14 implicam não apenas proclamação mundial, mas conquista mundial pelo evangelho:
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações…”
— Mateus 28.19
Eles raciocinam que, como Cristo tem “toda a autoridade” e promete estar com a igreja até o fim, a Grande Comissão deve ter sucesso em um sentido dominante e global — isto é, um mundo cristianizado.
3.2. Parábolas de Crescimento: Grão de Mostarda e Fermento
Pós-milenistas apelam para Mateus 13.31‑33:
- O grão de mostarda que se torna uma grande árvore.
- O fermento que leveda toda a massa.
Eles entendem essas parábolas como ensinando a expansão gradual, porém inevitável, do reino até que ele permeie o mundo todo e suas instituições.
3.3. Profecias de “Era Dourada” no Antigo Testamento
Apontam para textos do Antigo Testamento que descrevem justiça e paz em toda a terra:
- Salmo 72; Isaías 2.2‑4; Isaías 11.6‑9; Miqueias 4.1‑4
- Números 14.21: “toda a terra se encherá da glória do SENHOR”.
Esses textos são tomados como descrição de uma futura era dourada na história, anterior ao estado eterno, produzida pelo avanço do evangelho.
3.4. Textos Sobre Salvação Mundial
Passagens como:
- Romanos 11.25‑26 (“todo o Israel será salvo”),
- Apocalipse 7.9‑10 (uma grande multidão de todas as nações),
são usadas para sugerir que a maioria da humanidade, e não apenas um remanescente, acabará vindo à fé.
3.5. Interpretação Simbólica dos “Mil Anos”
Pós-milenistas concordam com amilenistas que Apocalipse 20 é simbólico:
- “Mil anos” = um período longo e completo, não uma duração literal.
- O “aprisionamento” de Satanás (Ap 20.1‑3) é entendido como sua perda progressiva de influência à medida que o evangelho avança.
4. Problemas Bíblicos e Teológicos do Pós-milenismo
A partir de uma leitura literal‑gramatical e premilenista das Escrituras, surgem várias dificuldades fundamentais.
4.1. O Tempo e a Natureza do Reino
O pós-milenismo coloca o triunfo culminante do reino antes da segunda vinda de Cristo. No entanto, o Novo Testamento associa constantemente o domínio manifesto e visível de Cristo sobre as nações com o Seu retorno em glória:
- Em Atos 1.6‑7, os discípulos perguntam: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”. Jesus não nega uma restauração futura; Ele apenas nega a eles o conhecimento de seu tempo, e então os envia como testemunhas na presente era.
- Mateus 19.28 e Lucas 22.28‑30 prometem aos apóstolos que se sentarão em doze tronos, julgando as doze tribos de Israel — algo nunca cumprido na história da igreja, mas plenamente adequado a um futuro reino terreno.
- Apocalipse 19–20 apresenta uma sequência clara:
- O retorno visível de Cristo e a derrota de Seus inimigos (Ap 19.11‑21).
- Então (20.1) Satanás é preso por mil anos.
- Os santos ressuscitados reinam com Cristo durante esse período (20.4‑6).
- Só depois desse Milênio vêm a rebelião final, o juízo final e o estado eterno.
A leitura mais natural é que o Milênio segue o retorno de Cristo — não que o preceda nem que seja produzido pela igreja.
4.2. O Aprisionamento de Satanás
Pós-milenistas afirmam que Satanás está já agora preso de tal forma que não pode “enganar as nações” (Ap 20.3), o que permitiria o triunfo global do evangelho.
Mas isso entra em choque com a descrição do Novo Testamento sobre a atividade atual de Satanás:
- Ele é “o deus deste século”, que cega o entendimento dos descrentes (2 Coríntios 4.4).
- Ele “anda em derredor, rugindo como leão, procurando a quem possa devorar” (1 Pedro 5.8).
- Ele é “o sedutor de todo o mundo” (Apocalipse 12.9), e seu engano se intensifica nos últimos dias (cf. 2 Tessalonicenses 2.9‑10).
A linguagem de Apocalipse 20.1‑3 — lançado no abismo, fechado e selado sobre ele — descreve uma remoção total de influência terrena, não uma restrição parcial. Nada semelhante ainda ocorreu na história. Chamar a era presente de tempo em que Satanás “não mais enganaria as nações” (Ap 20.3) é exegeticamente impossível.
4.3. O Mundo Está Ficarndo Melhor?
O pós-milenismo é caracterizado por uma visão otimista da história: o evangelho transformará a sociedade a tal ponto que o mal se tornará marginal.
Entretanto, passagens centrais do Novo Testamento predizem intensificação do mal e da apostasia antes do retorno de Cristo:
- Mateus 7.13‑14: poucos entram pela porta estreita; muitos seguem o caminho da perdição.
- Mateus 24.4‑12: engano, iniquidade e perseguição aumentam; “o amor de muitos esfriará”.
- Lucas 18.8: “Quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?”.
- 2 Timóteo 3.1‑5, 12‑13: “nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis… os homens perversos e impostores irão de mal a pior”.
- 2 Tessalonicenses 2.3‑4: antes do dia do Senhor haverá “a apostasia” e a revelação do “homem da iniquidade”.
O livro de Apocalipse, da mesma forma, apresenta as nações enfurecidas, a perseguição aos santos se intensificando e juízos globais caindo antes de Cristo vir em glória — não uma civilização cristã estabilizada.
Embora Deus possa conceder tempos de avivamento e impacto social localizado, não há base bíblica para esperar uma era dourada cristã mundial antes do retorno de Cristo.
4.4. A Estrutura da Ressurreição e do Juízo

O pós-milenismo funde ressurreição e juízo em um único evento geral no fim da história. Ao fazer isso, precisa reinterpretar Apocalipse 20:
- A “primeira ressurreição” (20.4‑6) é entendida como espiritual (conversão ou entrada do crente no céu).
- “Os outros mortos” que “não reviveram” até que os mil anos se completassem (20.5) são tomados como a única ressurreição corporal literal.
Mas isso é exegética e linguisticamente forçado:
- O mesmo verbo “viveram” (ezēsan) é usado para ambos os grupos (20.4 e 20.5).
- O substantivo “ressurreição” (anástasis, v. 5) é usado 41 de 42 vezes no NT para ressurreição corporal.
- Nada no contexto sugere uma mudança de sentido de espiritual para físico.
A leitura direta: existem duas ressurreições corporais, separadas pelo Milênio — primeiro dos crentes, para reinarem com Cristo; depois dos descrentes, para o juízo final. Esse padrão se ajusta ao premilenismo, não ao pós-milenismo.
4.5. Israel, a Igreja e as Alianças
A maioria dos pós-milenistas, situados na tradição da teologia do pacto, confunde ou colapsa a distinção entre Israel e a igreja:
- As promessas de terra e realeza feitas a Abraão e Davi são ditas como cumpridas espiritualmente na igreja.
- Assim, não haveria necessidade de um futuro reino terreno em que Israel nacional fosse restaurado.
Contudo, as Escrituras tratam as alianças abraâmica e davídica como incondicionais e irrevogáveis:
- A terra foi prometida como “posse perpétua” à descendência de Abraão (Gênesis 17.7‑8).
- Deus jurou que o trono e a dinastia de Davi seriam estabelecidos para sempre (2 Samuel 7.12‑16; Salmo 89.30‑37).
- Paulo insiste que o endurecimento atual de Israel é parcial e temporário e que “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Romanos 11.25‑29).
O cumprimento literal dessas alianças — Cristo reinando no trono de Davi em Jerusalém, Israel restaurado e abençoado entre as nações — se encaixa naturalmente em um futuro reino milenar, não em uma era dourada produzida pela igreja antes do retorno de Cristo.
4.6. Hermenêutica: Cumprimento Literal vs. Espiritualização
O pós-milenismo depende de uma espiritualização seletiva de textos proféticos:
- Promessas veterotestamentárias sobre o reino são reinterpretadas como majoritariamente cumpridas na igreja, nesta era.
- Os “mil anos” de Apocalipse 20 são simbólicos, enquanto outros números (144 mil; 1.260 dias; 42 meses) são frequentemente tratados como literais ou, ao menos, definidos.
Mas o padrão de cumprimento bíblico é instrutivo:
- Profecias sobre a primeira vinda de Cristo (Belém, nascimento virginal, linhagem davídica, sofrimento, ressurreição) foram cumpridas de modo literal.
- É metodologicamente consistente esperar que as profecias sobre a segunda vinda e o reino sejam cumpridas da mesma forma — retorno literal, reinado literal, restauração literal.
Quando o sentido simples do texto produz um quadro escatológico coerente (como o faz o premilenismo), recorrer a uma espiritualização extensa não é apenas desnecessário, mas distorce o texto.
5. Implicações Práticas: Missão Sem Ilusões
Criticar o pós-milenismo não é criticar:
- O zelo por missões,
- O desejo de transformação cultural,
- A confiança no poder do evangelho.
Sob a perspectiva premilenista, a igreja é chamada a pregar o evangelho a todas as nações, a influenciar a sociedade para a justiça e a servir como “sal” e “luz” em um mundo em decomposição — sem a ilusão de que iremos introduzir politicamente ou culturalmente o reino.
A Escritura dirige nossa esperança última não para uma civilização construída pela igreja, mas para o retorno pessoal e o reinado de Cristo:
“…e reinarão sobre a terra.”
— Apocalipse 5.10
“…viveram e reinaram com Cristo durante mil anos.”
— Apocalipse 20.4
6. Conclusão
O pós-milenismo oferece uma visão motivadora: o mundo cristianizado pelo sucesso do evangelho, seguido pelo retorno de Cristo. Contudo, quando testado por uma leitura consistente e literal das Escrituras, vários problemas fatais emergem:
- A manifestação culminante do reino está vinculada ao retorno de Cristo, não a um progresso histórico gradual.
- Satanás não está hoje preso do modo total descrito em Apocalipse 20.
- O Novo Testamento prevê crescimento da decepção e da apostasia, não um mundo em constante melhoria.
- Apocalipse 20 ensina duas ressurreições corporais separadas pelo Milênio, não uma ressurreição geral única.
- As alianças abraâmica e davídica ainda aguardam sua realização plena e literal em um futuro reino terreno.
A igreja deve, sim, trabalhar, orar e sofrer pelo avanço do evangelho em todas as nações. Mas sua esperança por uma ordem global verdadeiramente justa não repousa em sua própria conquista cultural, e sim na manifestação do Rei, que estabelecerá pessoalmente o Seu reinado na terra.
“Porque é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés.”
— 1 Coríntios 15.25
Esse reinado, em sua plenitude, aguarda o Seu retorno — não o nosso sucesso.
FAQ
P: Criticar o pós-milenismo significa que devemos ser pessimistas em relação a missões e cultura?
Não. O Novo Testamento ordena a evangelização global e conclama os crentes a agirem como sal e luz em todas as esferas da vida. A crítica não é contra o esforço, mas contra a expectativa de que a igreja criará uma ordem global quase utópica antes do retorno de Cristo. Trabalhamos fielmente, mas confiamos o estabelecimento final do reino ao Rei que voltará.
P: Em que o pós-milenismo difere do amilenismo?
Ambos entendem os “mil anos” de Apocalipse 20 como simbólicos e presentes, e não futuros. A diferença principal é o grau de otimismo: o pós-milenismo espera que o evangelho cristianize o mundo, enquanto o amilenismo, em geral, espera um conflito contínuo entre o bem e o mal até o retorno de Cristo, sem uma era dourada anterior à parousia.
P: O pós-milenismo é uma heresia?
Historicamente, o pós-milenismo tem sido sustentado por teólogos de outra forma ortodoxos e é melhor descrito como um erro sério, não como heresia condenável. Ele interpreta mal textos proféticos centrais e alimenta expectativas irreais sobre o curso da história, mas não nega necessariamente doutrinas fundamentais como a divindade de Cristo, a Trindade ou a justificação pela fé.
P: Qual é o principal problema bíblico do pós-milenismo?
A questão central é o tempo do reino — colocar a vitória culminante do reino antes do retorno de Cristo, em vez de como resultado dele. Isso força o pós-milenismo a reinterpretar o aprisionamento de Satanás, a descrição da apostasia dos últimos dias e a estrutura da ressurreição em Apocalipse 20 de maneiras que entram em conflito com o sentido direto do texto.
P: Se a igreja não vai cristianizar o mundo, qual é o nosso papel na história?
A vocação da igreja é proclamar Cristo, fazer discípulos, plantar e fortalecer igrejas e viver em santidade, exibindo os sinais do reino vindouro. Devemos trabalhar por justiça, misericórdia e verdade em todas as áreas, sabendo que nosso trabalho no Senhor não é em vão — mas reconhecendo que somente o Cristo que retorna sujeitará decisivamente todos os inimigos e estabelecerá a justiça perfeita sobre a terra.
Perguntas Frequentes
Criticar o pós-milenismo significa que devemos ser pessimistas em relação a missões e cultura?
Em que o pós-milenismo difere do amilenismo?
O pós-milenismo é uma heresia?
Qual é o principal problema bíblico do pós-milenismo?
Se a igreja não vai cristianizar o mundo, qual é o nosso papel na história?
L. A. C.
Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.
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