O Pré-tribulacionismo Examinado

Escatologia11 min de leitura

1. Introdução

O pré-tribulacionismo ensina que o Arrebatamento da igreja — a retirada para o alto dos crentes vivos e mortos para se encontrarem com Cristo nos ares (1 Tessalonicenses 4.13–18) — ocorre antes da futura Tribulação de sete anos (a septuagésima semana de Daniel, Daniel 9.24–27). Após esse período de juízo sem precedentes, Cristo volta em glória à terra com os Seus santos para estabelecer o Seu reino milenar (Apocalipse 19–20).

Este artigo examina a visão do Arrebatamento pré‑tribulacional, avaliando seus fundamentos bíblicos e principais argumentos. Embora existam outras posições (meio da Tribulação, pós‑Tribulação, pré‑ira, Arrebatamento parcial), nosso foco é a alegação de que o Arrebatamento antes da Tribulação harmoniza melhor as Escrituras, especialmente quando mantemos uma interpretação profética consistente, literal e dispensacional.


2. Distinção Entre Israel e a Igreja

Um elemento central do pré‑tribulacionismo é a distinção entre Israel e a igreja no programa profético de Deus.

2.1 A Igreja Como um Povo Novo e Único

O Novo Testamento apresenta a igreja como um “mistério” que não foi revelado no Antigo Testamento, mas desvelado na era apostólica (Efésios 3.3–6; Colossenses 1.26–27). Os crentes desta era são unidos em “um só corpo” pela obra batizadora do Espírito Santo:

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres...”
1 Coríntios 12.13

Esse corpo batizado pelo Espírito teve início no Pentecostes (Atos 2) e será completado no Arrebatamento. Nenhuma passagem do Antigo Testamento revela claramente esse corpo; Israel e a igreja não são intercambiáveis.

2.2 A Septuagésima Semana de Daniel e Israel

Linha do tempo em infográfico das setenta semanas de Daniel, destacando o parêntese da era da igreja e o arrebatamento pré-tribulação.
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Linha do tempo em infográfico das setenta semanas de Daniel, destacando o parêntese da era da igreja e o arrebatamento pré-tribulação.
Um diagrama de linha do tempo profética mostrando as primeiras 69 semanas de Daniel para Israel, o parêntese da era da igreja, a futura septuagésima semana como a Tribulação e o arrebatamento ocorrendo antes que Deus retome Seus tratados de aliança com Israel.

A profecia das setenta “semanas” de Daniel 9.24–27 diz respeito explicitamente a:

“o teu povo e a tua santa cidade”
Daniel 9.24

“Teu povo” = Israel; “tua santa cidade” = Jerusalém. As primeiras 69 “semanas” (períodos de sete anos) culminaram na primeira vinda do Messias e em Sua rejeição (Daniel 9.26). A septuagésima semana — um período futuro de sete anos — permanece por se cumprir e está ligada à restauração final de Israel.

Chama a atenção o fato de que a igreja não existia durante as primeiras 69 semanas e não é mencionada na profecia. Isso sugere fortemente que a septuagésima semana também é focada em Israel, e não na igreja. O pré‑tribulacionismo se encaixa naturalmente nessa estrutura: a era da igreja é um parêntese entre a 69ª e a 70ª “semana”; a igreja é completada e removida antes que Deus retome Seus tratos pactualmente específicos com Israel na Tribulação.

2.3 O Propósito da Tribulação

A Tribulação é consistentemente descrita como centrada em Israel:

  • “tempo de angústia para Jacó” (Jeremias 30.7)
  • período que culmina no arrependimento nacional de Israel (Zacarias 12.10; Romanos 11.26–27)

Os propósitos principais são:

  1. Purificar e preparar Israel para receber o seu Messias.
  2. Julgar o mundo incrédulo (os “habitantes da terra” em Apocalipse).

A igreja, já justificada e santificada posicionalmente em Cristo (Romanos 8.1; Efésios 1.3–7), não é o objeto dessa ira. Essa distinção entre Israel e a igreja é uma razão estrutural chave para se esperar a remoção da igreja antes que a septuagésima semana se inicie.


3. Isenção da Ira Divina

O Novo Testamento promete explicitamente que os crentes desta era da igreja não são destinados à ira divina.

3.1 1 Tessalonicenses: Libertação da Ira Vindoura

Paulo elogia os tessalonicenses por sua conversão e esperança:

“...para aguardardes dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura.”
1 Tessalonicenses 1.10

Mais adiante ele declara:

“Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo.”
1 Tessalonicenses 5.9

No contexto:

  • 1 Tessalonicenses 4.13–18 descreve o Arrebatamento.
  • 1 Tessalonicenses 5.1–11 trata do Dia do Senhor — tempo de destruição súbita e trevas sobre o mundo incrédulo.

Os crentes são claramente distinguidos daqueles sobre quem essa destruição cai (note os pronomes “eles...lhes” em contraste com “vós...nós” em 1 Tessalonicenses 5.3–5). O destino da igreja é salvação, não ira; devemos “consolar uns aos outros com estas palavras” (4.18; 5.11). Isso sustenta fortemente uma remoção antes da manifestação da ira, melhor explicada por um Arrebatamento pré‑Tribulação.

3.2 Apocalipse 3.10 – Guardados da Hora

A promessa de Cristo à igreja fiel em Filadélfia é programática:

“Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra.”
Apocalipse 3.10

Observações importantes:

  • A promessa não é apenas ser guardado na provação, mas “guardado da hora da provação” — da própria faixa de tempo (“hora”) do teste global.
  • O alcance é “o mundo inteiro”; não se trata de perseguição localizada, mas de um juízo abrangente, coerente com a Tribulação de Apocalipse 6–19.
  • O meio de proteção é ligado à Sua vinda: “Venho sem demora” (Apocalipse 3.11).

A expressão grega tēreō ek (“guardar...de”) indica, de forma natural, preservação fora de, não proteção enquanto se permanece dentro. O único outro uso no Novo Testamento (João 17.15) fala de ser guardado do Maligno, não preservado em segurança sob o seu domínio. Quando acrescentamos que multidões de crentes são martirizadas na Tribulação (Apocalipse 6.9–11; 7.9–14), a promessa de Apocalipse 3.10 não pode significar “nenhum crente morrerá”; deve significar que a igreja como tal será removida daquela hora.

Assim, à igreja é prometida isenção do tempo da ira — não apenas da sua fase mais severa. Isso sustenta um Arrebatamento antes do início da Tribulação de sete anos.


4. A Esperança Imediata da Vinda de Cristo

O pré‑tribulacionismo preserva de forma única o ensino do Novo Testamento de que a vinda de Cristo para a Sua igreja é iminente — pode ocorrer a qualquer momento.

4.1 Linguagem de Expectativa no Novo Testamento

Os crentes são ordenados a:

  • “aguardar dos céus o seu Filho” (1 Tessalonicenses 1.10)
  • “aguardar dos céus o Salvador” (Filipenses 3.20)
  • “aguardar a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2.13)
  • viver sabendo que “o Senhor está próximo” (Filipenses 4.5)
  • saber que “o Juiz está às portas” (Tiago 5.8–9)

A palavra de ordem aramaica da igreja primitiva, “Maranata” (1 Coríntios 16.22) — “Vem, Senhor!” — expressa essa expectativa de qualquer momento. Não se afirma que eventos proféticos intermediários precisem ocorrer antes do Arrebatamento.

4.2 Incompatibilidade da Iminência com Outros Momentos

Todas as visões não pré‑tribulacionais colocam eventos conhecidos e profetizados antes do Arrebatamento:

  • Meio da Tribulação: ao menos os primeiros 3½ anos, incluindo juízos iniciais e a ascensão do Anticristo, devem ocorrer primeiro.
  • Pré‑ira: cerca de 5 ou mais anos de Tribulação devem transcorrer antes do Arrebatamento “pré‑ira”.
  • Pós‑Tribulação: toda a Tribulação, incluindo a Abominação da Desolação, as trombetas, as taças e Armagedom, deve preceder o Arrebatamento.

Em tais esquemas, os crentes não podem dizer genuinamente: “Cristo pode vir hoje”; devem dizer: “Cristo não pode vir até que X, Y e Z ocorram”. Isso contradiz diretamente a postura de imediatismo do Novo Testamento.

Somente um Arrebatamento pré‑tribulacional preserva, de fato, a doutrina bíblica da iminência.


5. A Ausência da Igreja em Apocalipse 4–19

O fluxo estrutural de Apocalipse apoia fortemente um Arrebatamento antes da Tribulação.

5.1 Ekklesia em Apocalipse

  • Apocalipse 1–3: a palavra ekklesia (“igreja”) ocorre 19 vezes, em mensagens a igrejas reais do primeiro século que também representam a era da igreja.
  • Apocalipse 4–19: não há menção da igreja na terra.
  • Apocalipse 22.16: ekklesia aparece novamente no epílogo.

A partir do capítulo 4, o foco muda da igreja para Israel, as nações, os 144 mil das tribos de Israel e “os que habitam sobre a terra”. Os selos, trombetas e taças descrevem juízos globais sem referência à presença ou ministério da igreja. Isso é difícil de explicar se a igreja supostamente fosse central na terra durante esse período.

5.2 Quem São os Vinte e Quatro Anciãos?

Uma explicação convincente é que os vinte e quatro anciãos ao redor do trono de Deus (Apocalipse 4.4, 10; 5.5–10; 7.11–13; 11.16; 19.4) representam a igreja glorificada no céu:

  • São chamados de “anciãos” — termo ligado à representação do povo de Deus, especialmente no contexto da igreja.
  • Estão sentados em tronos, privilégio prometido aos vencedores da igreja (Apocalipse 3.21).
  • Vestem vestiduras brancas e usam coroas, o que corresponde às promessas feitas aos crentes desta era (Apocalipse 2.10; 3.5, 18; 19.7–8).
  • Cantam um cântico de redenção que envolve pessoas de “toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5.9–10), o que se ajusta à igreja multiétnica.
  • São claramente distintos dos anjos (Apocalipse 5.11).

Se esses anciãos simbolizam a igreja já completada no céu antes que os juízos dos selos comecem (Apocalipse 6), a implicação é evidente: a igreja foi arrebatada antes da Tribulação.


6. O Restritor e a Revelação do Homem da Iniquidade

2 Tessalonicenses 2 relaciona a revelação do Anticristo (“o homem da iniquidade”) à remoção de uma força restritiva:

“E agora sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria. [...] Aquele que agora o detém o fará até que seja afastado; então será, de fato, revelado o iníquo...”
2 Tessalonicenses 2.6–8

O restritor:

  • está atualmente em ação;
  • contém a iniquidade mundial e a manifestação do Anticristo;
  • será removido (“afastado”) antes que o homem do pecado seja revelado.

A identificação mais coerente é a obra restritiva do Espírito Santo por meio da igreja. Quando a igreja é arrebatada, esse ministério corporativo e particular de restrição cessa, permitindo que o Anticristo seja revelado e que a septuagésima semana de Daniel se inicie.

Essa sequência — igreja removida → restritor retirado → Anticristo revelado → Dia do Senhor começa — se ajusta com precisão ao pré‑tribulacionismo e explica por que os tessalonicenses ficaram alarmados com a falsa alegação de que “o Dia do Senhor já chegou” (2 Tessalonicenses 2.2): eles esperavam ser retirados primeiro, não se encontrar dentro desse dia.


7. Arrebatamento e Segunda Vinda: Uma Vinda em Duas Fases

Infográfico lado a lado comparando o arrebatamento e a Segunda Vinda como duas fases do retorno de Cristo.
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Infográfico lado a lado comparando o arrebatamento e a Segunda Vinda como duas fases do retorno de Cristo.
Um gráfico de comparação estruturado mostrando as principais diferenças entre o arrebatamento e a Segunda Vinda—participantes, local, foco, sinais e cronologia—dentro de uma sequência simples do fim dos tempos, da era da igreja à Tribulação e ao reino milenar.

A Escritura descreve dois aspectos distintos, embora relacionados, da vinda futura de Cristo:

  • Arrebatamento: Cristo vem para os Seus santos, nos ares, para levá‑los à casa do Pai (João 14.1–3; 1 Tessalonicenses 4.13–18).
  • Revelação/Segunda Vinda: Cristo vem com os Seus santos, à terra, para julgar e reinar (Zacarias 14.4–5; Mateus 24.29–31; Apocalipse 19.11–16).

A comparação revela diferenças marcantes:

AspectoArrebatamento (1Ts 4; 1Co 15)Segunda Vinda (Mt 24; Ap 19)
DireçãoCristo vem até os ares; santos são arrebatadosCristo desce até a terra
ParticipantesSomente crentesToda a humanidade envolvida
FocoRessurreição e transformação; consoloJuízo e estabelecimento do reino
SinaisNenhum pré-requisito; iminentePrecedida por muitos sinais profetizados
DestinoSantos levados à casa do PaiSantos retornam com Cristo para reinar na terra

Esses aspectos são melhor compreendidos como duas fases de uma única Segunda Vinda, separadas pela Tribulação. Um Arrebatamento pré‑Tribulação respeita essas distinções e os diferentes ênfases pastorais: consolo e esperança, de um lado; advertência e juízo, de outro.


8. Conclusão

Ao sintetizarmos as principais linhas de evidência bíblica, o pré‑tribulacionismo emerge como a visão mais coerente e textualmente fundamentada quanto ao momento do Arrebatamento:

  • Honra a distinção entre Israel e a igreja, mantendo a septuagésima semana de Daniel focada em Israel e nas nações.
  • Leva a sério a promessa de isenção da ira divina feita à igreja e a promessa específica de ser guardada da hora da provação global.
  • Preserva a expectativa iminente do Novo Testamento quanto à vinda de Cristo para Sua noiva.
  • Explica a ausência da igreja em Apocalipse 4–19 e a presença dos vinte e quatro anciãos no céu.
  • Harmoniza o ensino de 2 Tessalonicenses 2 sobre o restritor e a revelação do homem da iniquidade.
  • Ajusta‑se ao padrão em duas fases da volta de Cristo — primeiro para os Seus santos, depois com eles.

Outras propostas quanto ao momento do Arrebatamento apresentam alguns argumentos, mas invariavelmente confundem a distinção Israel‑igreja, enfraquecem a doutrina da iminência ou geram tensões cronológicas e teológicas sérias (por exemplo: quem povoará o Milênio em corpos naturais; como o tribunal de Cristo e as bodas do Cordeiro se encaixam; por que a igreja jamais é mencionada nos principais textos sobre a Tribulação).

A partir de uma leitura profética consistente, literal e evangélica das Escrituras, o Arrebatamento pré‑tribulacional não é apenas atraente — é a explicação mais biblicamente consistente de como Cristo reunirá Sua igreja antes que os juízos finais de Deus caiam sobre um mundo rebelde e antes que Ele volte a tratar com Israel em misericórdia pactual.

Os crentes, portanto, são corretos ao viver em santa expectativa, “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2.13).

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Perguntas Frequentes

O que é o pré-tribulacionismo?
O pré-tribulacionismo ensina que Cristo arrebatará Sua Igreja ANTES de iniciar a Tribulação de sete anos (a septuagésima semana de Daniel). Após esse período de juízo divino, Cristo volta em glória à terra com Seus santos para estabelecer o Milênio.
Por que a Igreja é isenta da Tribulação?
A Escritura promete explicitamente aos crentes isenção da ira escatológica de Deus. 1 Tessalonicenses 1.10 fala de Jesus "que nos livra da ira vindoura". Apocalipse 3.10 promete guardar os crentes "da hora da provação" que há de vir sobre o mundo inteiro — isenção do próprio período, não apenas proteção dentro dele.

L. A. C.

Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.

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