O Premilenismo em Análise: A Base Bíblica para o Reino Terreno de Cristo
1. Introdução
O pré‑milennialismo ensina que Jesus Cristo voltará corporalmente à terra antes de um futuro reino de mil anos, durante o qual Ele reinará sobre as nações em justiça e paz. Essa visão não se baseia em sistemas especulativos, mas em uma leitura simples, gramatical‑histórica das Escrituras, especialmente de Apocalipse 19–20 e de importantes profecias do reino no Antigo Testamento.
Este artigo apresenta o caso bíblico para o pré‑milennialismo — a tese de que o reinado de Cristo será terreno, futuro e inaugurado em Sua Segunda Vinda.
2. A Estrutura de Apocalipse 19–20: Cristo Vem Antes do Reino
2.1 A Sequência de “Então vi”

Um texto central é Apocalipse 19:11–21, seguido de Apocalipse 20:1–6. João marca repetidamente uma sequência cronológica com a frase “Então vi”:
- “Então vi o céu aberto, e eis um cavalo branco!” — Ap 19:11 (Segunda Vinda)
- “Então vi descer do céu um anjo…” — Ap 20:1 (prisão de Satanás)
- “Vi também tronos, e nestes sentaram‑se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar.” — Ap 20:4 (santos reinando)
Nesse fluxo:
- Cristo volta em glória (19:11–16).
- A besta e o falso profeta são lançados no lago de fogo (19:19–21).
- Satanás é preso por mil anos (20:1–3).
- Os santos ressuscitados reinam com Cristo por mil anos (20:4–6).
A leitura mais natural é que o reino milenar segue a Segunda Vinda, e não que o Milênio simboliza a era presente. Seis referências explícitas a “mil anos” (Ap 20:2–7) enfatizam um período real e definido, não uma ideia vaga de “muito tempo”.
3. A Prisão de Satanás: Futura, Completa e Focada na Terra
3.1 A Linguagem de Incarceramento Total
Em Apocalipse 20:1–3, Satanás é:
“agarrou o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou‑o no abismo, fechou‑o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações, até que se completassem os mil anos.”
Não se trata de uma restrição leve, mas de remoção total da atividade terrena. Ele é confinado no “abismo”, a mesma prisão temida pelos demônios (Lc 8:31).
Entretanto, na era presente, a Escritura descreve Satanás como:
- “o deus deste século” que cega o entendimento dos incrédulos (2 Co 4:4);
- “o príncipe deste mundo” (Jo 12:31; 14:30);
- “como leão que ruge, procurando alguém para devorar” (1 Pe 5:8);
- Aquele que ainda precisa ser resistido (Tg 4:7) e que dificulta o ministério cristão (1 Ts 2:18).
Essas descrições não se ajustam a um Satanás já preso como em Apocalipse 20. Somente o pré‑milennialismo faz justiça a ambas as passagens ao situar a prisão de Satanás após a volta de Cristo, em uma era milenar distinta, quando cessa o engano global.
4. As Duas Ressurreições de Apocalipse 20
4.1 Mesmo Verbo, Mesmo Sentido
Apocalipse 20:4–6 declara:
“Viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição.”
— Ap 20:4–5
Observações importantes:
- O verbo “viveram” / “reviveram” (ezēsan) é usado para ambos os grupos (v. 4 e v. 5).
- A passagem chama explicitamente o primeiro evento de “a primeira ressurreição” (v. 5–6).
- O substantivo “ressurreição” (anastasis) aparece 42 vezes no Novo Testamento; em 41 vezes refere‑se claramente à ressurreição corporal.
Afirmar que a primeira ressurreição é “espiritual” (por exemplo, regeneração ou entrada no céu), enquanto a segunda é corporal, divide o uso da linguagem de maneira arbitrária. Como Henry Alford advertiu de modo famoso, se o primeiro “viveram” é espiritual e o segundo é físico:
“Então acaba‑se todo o significado da linguagem.”
O próprio texto distingue:
- Primeira ressurreição – dos mártires justos (e, por extensão, dos justos), antes dos mil anos;
- Segunda ressurreição – “dos restantes dos mortos” (os ímpios), após os mil anos, para juízo (Ap 20:11–15).
Isso se harmoniza com o pré‑milennialismo: duas ressurreições corporais separadas pelo reinado terreno de Cristo.
5. Profecias de Reino no Antigo Testamento que Exigem um Milênio Terreno
5.1 Isaías 65: Um Mundo Melhor que o Atual, Mas Ainda Não a Eternidade
Isaías 65:17–25 descreve um mundo transformado:
- Longevidade humana estendida: “o jovem morrerá de cem anos” (Is 65:20).
- Presença de pecado e maldição: “o pecador, de cem anos, será amaldiçoado” (v. 20).
- Harmonia na natureza: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos” (v. 25).
Essas condições:
- Não se ajustam à era presente da igreja (não vemos vidas tão prolongadas nem paz e justiça globais);
- Não se aplicam ao estado eterno, onde não haverá morte, maldição ou pecado (Ap 21:4; 22:3).
Assim, Isaías aponta para um reino intermediário: uma terra renovada com longa vida e justiça, mas em que a morte ainda é possível — exatamente o que o pré‑milennialismo identifica como o Milênio.
5.2 Zacarias 14: Messias Reinando Sobre Nações Arrependidas, Mas Ainda Pecadoras
Zacarias 14 apresenta:
- Uma vinda visível do SENHOR: “Naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras” (Zc 14:4);
- O SENHOR reinando como “Rei sobre toda a terra” (14:9);
- Sobreviventes das nações subindo anualmente para adorar em Jerusalém (14:16);
- Nações desobedientes sendo punidas com seca e pragas (14:17–19).
Mais uma vez, isso não pode descrever:
- A era presente (Cristo não está reinando abertamente de Jerusalém, e as nações não sobem anualmente para adorá‑Lo ali), nem
- O estado eterno (onde não há mais pecado nem juízo).
O quadro se encaixa em um reinado futuro e terreno do Messias sobre nações ainda capazes de pecar — o reino milenar ensinado pelo pré‑milennialismo.
6. As Alianças com Abraão e Davi: Pendências a Serem Cumpridas na Terra
6.1 Aliança Abraâmica: Terra, Descendência e Bênção

Deus prometeu a Abraão:
“À tua descendência darei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio, o rio Eufrates.”
— Gn 15:18
E ainda:
“Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti, em suas gerações, aliança perpétua… Dar‑te‑ei a ti e à tua descendência… a terra de Canaã, em possessão perpétua.”
— Gn 17:7–8
Essa aliança é:
- Unilateral – ratificada por Deus sozinho, que passa entre as metades dos animais (Gn 15:17);
- Perpétua – repetidamente chamada de “aliança perpétua”.
Israel ainda não possuiu toda essa extensão territorial de forma duradoura, em segurança e justiça. E essa promessa de terra não pode ser considerada plenamente cumprida apenas na “nova terra”, quando as distinções nacionais cessarem. O pré‑milennialismo espera um futuro reinado terreno em que os descendentes de Abraão desfrutarão da terra prometida sob o governo do Messias.
6.2 Aliança Davídica: Um Trono no Linha de Davi Para Sempre
Deus prometeu a Davi:
“Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; o teu trono será estabelecido para sempre.”
— 2 Sm 7:16
O anjo Gabriel aplica isso diretamente a Jesus:
“O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.”
— Lc 1:32–33
O pré‑milennialismo reconhece que:
- Cristo está agora exaltado à direita do Pai nos céus (At 2:33–36),
- Mas Ele ainda não se assentou no trono terreno de Davi em Jerusalém, reinando especificamente sobre “a casa de Jacó”.
A aliança davídica exige que o Filho maior de Davi reine literalmente a partir da cidade de Davi sobre Israel e as nações (Sl 2; Is 9:6–7). Um futuro Milênio fornece o cenário em que essa aliança é cumprida na história e na terra, antes do estado eterno.
7. Jesus, os Apóstolos e o Futuro de Israel
7.1 A Promessa de Jesus de Tronos em Israel
Jesus disse aos seus discípulos:
“Na regeneração, quando o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel.”
— Mt 19:28; cf. Lc 22:28–30
Trata‑se de:
- Uma promessa de autoridade judicial sobre Israel literal;
- Ligada a uma futura “regeneração” (palingenesia), a renovação de todas as coisas.
Essa promessa se encaixa naturalmente em um reino messiânico na terra, e não apenas na era da igreja ou em um cenário puramente celestial.
7.2 Atos 1:6–7: Jesus Não Cancela a Esperança do Reino Para Israel
Após quarenta dias de instrução pós‑ressurreição “a respeito do reino de Deus” (At 1:3), os discípulos perguntam:
“Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”
— At 1:6
Se sua expectativa de um reino restaurado, nacional, para Israel fosse equivocada, este seria o momento adequado para Jesus corrigi‑los. Em vez disso, Ele responde:
“Não lhes compete saber os tempos ou as épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade.”
— At 1:7
Ele confirma que tal restauração está no calendário do Pai, mas oculta o seu tempo. O pré‑milennialismo toma isso de forma direta: haverá uma futura restauração do reino a Israel, inaugurada quando Cristo voltar.
7.3 Romanos 11: A Futura Salvação de Israel Nacional
Paulo escreve:
“Porque não quero, irmãos, que vocês ignorem este mistério…: o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E assim todo o Israel será salvo.”
— Rm 11:25–26
Ele fundamenta isso em Isaías 59:
“Virá de Sião o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades.”
Aqui, “todo o Israel” é contrastado com “os gentios”; refere‑se a Israel étnico, não à igreja. O endurecimento de Israel é:
- Parcial (alguns judeus são salvos agora);
- Temporário (“até que entre a plenitude dos gentios”).
O pré‑milennialismo vê aí uma futura conversão nacional de Israel ao seu Messias, seguida de sua restauração às bênçãos da aliança prometidas nas alianças abraâmica e davídica — precisamente o que o Milênio descreve.
8. Por Que Mil Anos Literais?
Alguns objetam que “mil” pode ser simbólico na Escritura (Sl 50:10; 2 Pe 3:8). De fato, números podem carregar significados simbólicos. No entanto, em Apocalipse:
- Indicações de tempo como “quarenta e dois meses” (Ap 11:2; 13:5), “1.260 dias” (11:3; 12:6) e “três dias e meio” (11:9) são tratadas como períodos definidos;
- O número “mil” é usado em contagens específicas (por exemplo, 144.000 em Ap 7:4; 14:1), não meramente como metáfora.
Assim, mil anos literais ainda podem ter significado simbólico (plenitude, completude), do mesmo modo que os quarenta anos literais de Israel no deserto testaram a nação e, ao mesmo tempo, simbolizaram um período de prova. Não há nenhum sinal contextual em Apocalipse 20 de que “mil anos” deva ser puramente figurativo ou englobar toda a era da igreja.
O pré‑milennialismo, portanto, lê “mil anos” de forma literal, reconhecendo, porém, sua riqueza simbólica.
9. Conclusão
O pré‑milennialismo oferece uma compreensão coerente e bíblica da escatologia:
- Respeita o fluxo sequencial de Apocalipse 19–20;
- Leva a sério a prisão futura e total de Satanás e as duas ressurreições corporais de Apocalipse 20;
- Fornece um enquadramento natural para as profecias de reino do Antigo Testamento que não se ajustam nem a esta era nem ao estado eterno (por exemplo, Is 65; Zc 14);
- Honra as alianças incondicionais com Abraão e Davi, aguardando seu cumprimento literal na história;
- Mantém a integridade das promessas de Jesus aos apóstolos e da previsão paulina da futura salvação e restauração de Israel.
De Gênesis a Apocalipse, a narrativa bíblica antecipa não apenas um Messias crucificado e ressurreto, mas um Messias reinante, governando sobre a terra a partir do trono de Davi, com Israel restaurado, as nações subjugadas, a criação renovada e os santos reinando com Ele. Esse é o reino milenar, inaugurado após Sua vinda e consumado no estado eterno.
O pré‑milennialismo, corretamente entendido, é simplesmente o desdobramento consistente de uma leitura gramatical‑histórica das Escrituras e a confiança segura de que toda promessa de Deus — temporal e eterna — será cumprida em Cristo.
Perguntas Frequentes (FAQ)
P: Onde a Bíblia menciona especificamente o Milênio?
A expressão “mil anos” aparece seis vezes em Apocalipse 20:2–7. Essa passagem descreve a prisão de Satanás, a ressurreição dos santos e o seu reinado com Cristo por mil anos, seguida da soltura de Satanás e do juízo final. Outros textos do Antigo Testamento (por exemplo, Is 65; Zc 14; Sl 72) descrevem condições que se encaixam nesse reino milenar, embora não utilizem a palavra “Milênio”.
P: Por que o pré‑milennialismo insiste em mil anos literais em Apocalipse 20?
Porque a passagem repete o período de tempo seis vezes e não oferece nenhum sinal contextual de que seja puramente metafórico. Em Apocalipse e em outros textos apocalípticos, números normalmente indicam quantidades reais, ainda que carreguem significado simbólico. Mil anos literais podem, sim, simbolizar plenitude, mas permanecem um período definido e futuro do reinado terreno de Cristo.
P: Em que o pré‑milennialismo difere do amilennialismo e do pós‑milennialismo?
O pré‑milennialismo ensina que Cristo volta antes do Milênio e então reina corporalmente na terra por mil anos. O amilennialismo entende o Milênio como a era presente da igreja, com Cristo reinando espiritualmente desde o céu, sem um futuro reino terreno distinto. O pós‑milennialismo vê o Milênio como uma era de ouro dentro desta era, produzida pelo avanço do evangelho, com Cristo retornando apenas depois que o mundo estiver amplamente cristianizado.
P: Qual é o papel de Israel no pré‑milennialismo?
O pré‑milennialismo sustenta um futuro para Israel nacional, distinto da igreja. Com base nas alianças abraâmica e davídica e em textos como Romanos 11:25–29 e Atos 1:6–7, ele espera uma futura conversão nacional e restauração de Israel sob o reinado do Messias, na terra prometida aos patriarcas, dentro do reino milenar.
P: O pré‑milennialismo nega que Cristo esteja reinando agora?
Não. O pré‑milennialismo afirma que Cristo está atualmente exaltado à direita do Pai, soberano sobre o céu e a terra, reinando espiritualmente sobre a Sua igreja. Ao mesmo tempo, sustenta que haverá uma fase futura e distinta de Seu reinado — o reino messiânico na terra — na qual Ele se assentará no trono de Davi, em Jerusalém, governará as nações com cetro de ferro e cumprirá as promessas terrenas feitas a Israel e aos santos.
Perguntas Frequentes
Onde a Bíblia menciona especificamente o Milênio?
Por que o pré‑milennialismo insiste em mil anos literais em Apocalipse 20?
Em que o pré‑milennialismo difere do amilennialismo e do pós‑milennialismo?
Qual é o papel de Israel no pré‑milennialismo?
O pré‑milennialismo nega que Cristo esteja reinando agora?
L. A. C.
Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.
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