Propósitos bíblicos da Tribulação
1. Introdução
Na escatologia bíblica, a Tribulação é um futuro período de sete anos de angústia sem precedentes, imediatamente anterior à Segunda Vinda de Cristo (Dn 9.27; Mt 24.21; Ap 6–19). As Escrituras enfatizam não apenas a realidade e a severidade desse tempo, mas também seus propósitos divinamente determinados. A Tribulação não é uma catástrofe aleatória; é uma fase específica no programa redentivo e judicial de Deus para Israel, para as nações e para toda a criação.
Este artigo apresenta uma visão geral dos propósitos bíblicos da Tribulação, explicando por que Deus enviará esse período culminante de julgamento e salvação.
2. A Tribulação como Julgamento Global do Pecado
2.1 Derramar a Ira Divina sobre um Mundo que Rejeitou Cristo
Um dos propósitos centrais da Tribulação é consumar a ira de Deus contra o pecado persistente e não arrependido em escala mundial.
O Apocalipse descreve repetidamente esse período como ira:
“...escondam‑nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira deles...”
— Apocalipse 6.16–17
Outros textos-chave o descrevem como:
- “o dia da ira do SENHOR” (Sf 1.18)
- “o dia da vingança” (Is 34.8; 63.4)
- “a hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para por à prova os que habitam sobre a terra” (Ap 3.10)
A Tribulação é o momento em que a rebelião acumulada do mundo chega à “maturidade da colheita”:
“Lançai a foice, porque já está madura a seara; vinde, pisai, porque o lagar está cheio, os tonéis transbordam, porquanto é grande a sua maldade.”
— Joel 3.13
Apocalipse 9.20–21 e 16.8–11 mostram que, mesmo em meio a julgamentos crescentes, a humanidade em grande parte se recusa a se arrepender, confirmando a justiça do tratamento severo de Deus. A Tribulação, assim, vindica a justiça divina ao demonstrar que a incredulidade persistente não ficará sem resposta.
2.2 Pôr Fim à Dominação Rebelde dos Gentios

A Tribulação também põe fim aos “tempos dos gentios” (Lc 21.24), o longo período de dominação gentílica sobre Jerusalém e de rebelião internacional contra Deus. Durante esses anos finais, as nações são julgadas:
“Porque eis que o SENHOR sai do seu lugar para castigar a iniquidade dos moradores da terra...”
— Isaías 26.21
Os selos, trombetas e taças de Apocalipse 6–16 desmontam, de forma sistemática, as estruturas políticas, econômicas e religiosas de um sistema mundial que rejeita a Deus, preparando o cenário para o reinado visível de Cristo.
3. Propósitos de Deus para Israel na Tribulação
Embora de alcance global, a Tribulação tem um foco especial e pactual em Israel. O Antigo Testamento frequentemente a chama de “tempo de angústia para Jacó”:
“Ah! Porque aquele dia é grande, de maneira que não houve outro semelhante; é tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será salvo dela.”
— Jeremias 30.7
3.1 Disciplinar e Quebrar a Rebelião Nacional
Daniel 9.24–27 apresenta a septuagésima “semana” (sete anos) como o segmento final no programa de Deus para tratar do pecado de Israel:
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, dar fim aos pecados...”
— Daniel 9.24
Daniel 12.7 indica que o fim desse período vem “quando tiverem terminado de destruir o poder do povo santo” — isto é, quando a resistência obstinada de Israel ao governo de Deus for quebrada. A Tribulação funciona como disciplina pactual, coroando séculos de dureza de coração em relação ao seu Messias.
3.2 Levar Israel ao Arrependimento e à Salvação Nacional
Essa disciplina não é um fim em si mesma. Seu objetivo último é a restauração espiritual de Israel:
“E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram; eles o prantearão...”
— Zacarias 12.10
Outras passagens descrevem essa futura conversão:
- Jeremias 30.7–9 – Israel é liberto e serve “a Davi, seu rei”
- Romanos 11.26–27 – “E, assim, todo o Israel será salvo...”
- Zacarias 13.1 – “Naquele dia haverá uma fonte aberta... para purificar do pecado e da impureza”
Sob as intensas pressões da Tribulação — incluindo a perseguição pelo Anticristo (cf. Dn 7.25; Ap 12.13–17) — um remanescente refinado de Israel se arrependerá e crerá. A Tribulação é, portanto, um forno preparatório, do qual emerge um Israel regenerado, pronto para receber seu Messias e entrar no reino milenar.
3.3 Reagregar e Reconstituir Israel para o Reino
Muitos textos proféticos conectam um tempo de aflição sem paralelo a uma subsequente reagregação e restauração de Israel na terra:
- Deuteronômio 4.27–30 – nos “últimos dias”, Israel passará por tribulação e, então, se voltará para o SENHOR
- Ezequiel 36–37 – ajuntamento físico seguido de renovação espiritual
- Zacarias 8.7–8 – o SENHOR reúne seu povo “da terra do Oriente e da terra do Ocidente”
A Tribulação serve, assim, como transição da dispersão para a restauração, preparando uma nação crente, geográfica e espiritualmente, para o reino terreno do Messias.
4. Propósitos de Deus para as Nações e para os Pecadores Individuais
4.1 Julgar as Nações por sua Incredulidade e Hostilidade
Além de Israel, a Tribulação tem como alvo os poderes gentios, por causa de sua idolatria, injustiça e oposição ao povo de Deus:
“Congregarei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá; ali entrarei em juízo com elas, por causa do meu povo e da minha herança, Israel...”
— Joel 3.2
O Apocalipse retrata esse clímax na campanha do Armagedom (Ap 16.12–16; 19.11–21), quando os exércitos do mundo se unem contra Cristo e são completamente derrotados. A Tribulação culmina em uma separação judicial das nações (cf. Mt 25.31–46), determinando quem entrará no reino milenar.
4.2 Provar e Expor os “Habitantes da Terra”
Apocalipse usa a expressão “os que habitam sobre a terra” como um termo técnico para designar incrédulos endurecidos. A Tribulação é especificamente descrita como:
“...a hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra.”
— Apocalipse 3.10
Essa provação não apenas constata, mas também torna pública e expõe a verdadeira condição espiritual da humanidade. Sob julgamentos progressivamente mais severos, a maioria responde não com arrependimento, mas com blasfêmia (Ap 16.9–11). A Tribulação revela que, à parte da graça soberana, a humanidade persiste na rebelião, mesmo diante de inequívoca intervenção divina.
4.3 Conduzir Multidões à Salvação
Paradoxalmente, em meio ao julgamento, a Tribulação é também uma colheita de graça. Apocalipse 7 apresenta:
“...uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas...
...Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro.”
— Apocalipse 7.9,14
Deus usará diversos meios — testemunhas judias fiéis (geralmente associadas aos 144 mil em Ap 7.1–8), as duas testemunhas em Jerusalém (Ap 11.3–13) e a proclamação global do evangelho do reino (Mt 24.14) — para levar judeus e gentios à fé salvadora.
Assim, a Tribulação magnifica tanto a justiça quanto a misericórdia: é o contexto final e intensificado em que Deus julga a incredulidade persistente e, ao mesmo tempo, atrai incontáveis pecadores a Cristo.
5. Propósitos de Deus para Sua Própria Glória e para o Reino Vindouro
5.1 Manifestar o Poder e a Glória de Deus diante de um Mundo Desafiante
As pragas sobre o Egito, em Êxodo, oferecem um paradigma: Deus confrontou um governante que questionou: “Quem é o SENHOR...?” (Êx 5.2), e respondeu por meio de julgamentos que tornaram Seu nome conhecido em toda a terra.
Apocalipse retoma conscientemente o padrão de Êxodo. As pragas da Tribulação — sobre terra, mar, céus e sociedade — constituem uma teofania global:
“Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus Todo‑Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações!...
Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se tornaram manifestos.”
— Apocalipse 15.3–4
Ao final da Tribulação, nenhuma criatura — angelical ou humana — poderá negar a soberania, santidade e justiça de Deus. Esse período funciona como uma demonstração cósmica de quem, de fato, governa a história.
5.2 Desmascarar o Verdadeiro Caráter de Satanás
Outro propósito é expor plenamente a natureza e a agenda de Satanás. Quando o atual poder restritivo for removido (2Ts 2.7), o dragão agirá por meio da Besta (Anticristo) e do Falso Profeta (Ap 13), produzindo uma trindade falsa e um sistema global de blasfêmia e perseguição.
Nesse período:
- O ódio de Satanás contra Deus e contra a humanidade se manifesta sem disfarces.
- Sua farsa como suposto benfeitor da humanidade é desmascarada.
- Sua rebelião final termina em derrota pública e humilhação (Ap 19.20; 20.1–3).
A Tribulação, assim, revela por que Satanás precisa ser, em última instância, confinado e destruído, justificando a sentença final de Deus.
5.3 Purificar e Preparar a Terra para o Reino Milenar

Outro propósito crucial é limpar e reorganizar o mundo para o reinado de Cristo. Os julgamentos da Tribulação:
- Destruem sistemas políticos e religiosos corruptos (por exemplo, “Babilônia, a grande”, em Ap 17–18)
- Eliminam a maldade e a impiedade entranhadas (Is 13.9; 24.19–21)
- Removem muitos dos ímpios impenitentes, de modo que não entrem no reino
Sob outro ângulo, a Tribulação prepara o governo e a espiritualidade para o Milênio:
- Governo – Estruturas de poder humano são despedaçadas, de modo que Cristo, sozinho, governe “com vara de ferro” (Sl 2.9; Ap 19.15).
- Espiritualidade – Idolatria e rebelião aberta são julgadas, para que a era milenar comece com uma população predominantemente crente e com um Israel renovado no centro.
O resultado é um mundo preparado para o cumprimento de promessas como Isaías 11.9: “a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar”.
6. Resumo: Propósitos da Tribulação por Foco
| Área de Foco | Principais Propósitos Bíblicos |
|---|---|
| Justiça de Deus | Derramar ira sobre um mundo persistentemente rebelde; vindicar Sua santidade (Ap 6–16; Sf 1) |
| Israel | Disciplinar a incredulidade nacional; pôr fim à rebelião; produzir arrependimento, salvação e restauração nacional (Dn 9.24–27; Jr 30.7; Zc 12–13; Rm 11.26–27) |
| Nações / Indivíduos | Julgar poderes gentios; provar e expor os “habitantes da terra”; separar ovelhas de bodes; e ainda salvar uma grande multidão (Jl 3; Ap 3.10; Ap 7; Mt 25.31–46) |
| Satanás | Remover a restrição; revelar seu caráter homicida e enganador; derrotá‑lo publicamente por meio da vinda de Cristo (2Ts 2.8–10; Ap 12–13; 19–20) |
| Preparação para o Reino | Purificar a terra; encerrar o sistema mundial atual; preparar as condições políticas e espirituais para o reinado milenar (Is 13–24; Ap 17–19) |
| Glória de Deus | Demonstrar Seu poder, fidelidade pactual e soberania absoluta diante de toda a criação (Êx 9.16; Ap 15.3–4) |
7. Conclusão
A Bíblia apresenta a Tribulação como o período mais intenso de julgamento e crise da história humana, mas também como uma etapa cuidadosamente planejada dentro da história redentiva de Deus. Seus propósitos são multifacetados:
- Julgar o mal enraizado.
- Disciplinar e restaurar Israel.
- Provar e expor o coração das nações.
- Salvar uma multidão incontável.
- Desmascarar Satanás e encerrar seu domínio mundial.
- Preparar a terra para o reino justo de Cristo.
- Exibir a glória e a justiça de Deus de maneira incontestável.
Compreender esses propósitos nos impede de enxergar a Tribulação apenas como catástrofe religiosa. Em vez disso, percebemos que ela é a transição decisiva, ordenada por Deus, da presente era de rebelião para a era vindoura do reinado visível do Messias.
FAQ
P: Qual é o principal propósito bíblico da Tribulação?
O propósito principal é judicial e redentivo: Deus derrama Sua ira sobre um mundo obstinadamente incrédulo e, ao mesmo tempo, usa esses acontecimentos para disciplinar Israel, conduzir um remanescente de judeus e gentios à salvação e preparar a terra para o reino milenar de Cristo. Julgamento e misericórdia caminham lado a lado durante todo o período.
P: Por que a Tribulação está especialmente ligada a Israel?
A Escritura a chama de “tempo de angústia para Jacó” (Jr 30.7) e a relaciona com a última “semana” da profecia das setenta semanas de Daniel (Dn 9.24–27), que é explicitamente “determinada sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade”. Deus usa esses sete anos para pôr fim à transgressão de Israel, encerrar a rebelião contra a aliança e levar a nação ao arrependimento e à fé no Messias.
P: Como a Tribulação demonstra a glória de Deus?
Por meio dos julgamentos da Tribulação, Deus manifesta Seu poder, justiça e fidelidade em escala global. Assim como as pragas no Egito, esses eventos mostram que Ele é o único Deus verdadeiro. Apocalipse 15.3–4 registra o cântico celestial que declara Suas obras “grandes e admiráveis” e Seus caminhos “justos e verdadeiros”, mostrando que a Tribulação, em última análise, magnifica Sua glória.
P: A Tribulação tem algum propósito relacionado a Satanás?
Sim. Deus usa a Tribulação para remover a restrição e permitir que o programa de Satanás — por meio do Anticristo e do Falso Profeta — opere abertamente. Isso expõe o verdadeiro caráter de Satanás como enganador e destruidor e prepara o cenário para sua derrota pública na volta de Cristo e seu subsequente encarceramento (Ap 19.20; 20.1–3).
P: A Tribulação é somente julgamento, ou haverá pessoas salvas nesse período?
Embora seja dominada pelo julgamento, a Tribulação é também um tempo de grande salvação. Apocalipse 7.9–14 descreve uma “grande multidão” de todas as nações que “vem da grande tribulação” e que lavou suas vestiduras no sangue do Cordeiro. Deus usará as pressões desse período para levar muitos ao arrependimento e à fé em Cristo.
Perguntas Frequentes
Qual é o principal propósito bíblico da Tribulação?
Por que a Tribulação está especialmente ligada a Israel?
Como a Tribulação demonstra a glória de Deus?
A Tribulação tem algum propósito relacionado a Satanás?
A Tribulação é somente julgamento, ou haverá pessoas salvas nesse período?
L. A. C.
Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.
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