A Visão do Arrebatamento Parcial Examinada
1. Introdução
Dentro da escatologia evangélica, a visão do arrebatamento parcial sustenta que apenas alguns cristãos serão arrebatados na vinda de Cristo — especificamente, aqueles que são fiéis, espiritualmente preparados e "vigilantes". Crentes carnais ou despreparados, argumenta-se, serão deixados para suportar parte ou toda a Tribulação como uma disciplina severa, podendo ser arrebatados apenas posteriormente.
Este ensinamento levanta sérias questões sobre salvação, segurança e a natureza da igreja de Cristo. A Escritura ensina que o Arrebatamento é uma recompensa para os dignos, ou uma faceta da graça salvadora de Deus concedida a todos que estão "em Cristo"? Este artigo resume de forma justa a visão do arrebatamento parcial e então a examina biblicamente, argumentando que todos os crentes serão arrebatados, não apenas uma elite espiritual selecionada.
2. O Que a Visão do Arrebatamento Parcial Ensina

Embora existam variações, os princípios fundamentais da visão do arrebatamento parcial são:
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Apenas crentes vigilantes e fiéis são arrebatados.
Passagens que exortam os crentes a vigiar e estar prontos são tomadas como condições para participação no Arrebatamento (por exemplo, Mt 24–25; Lc 21:36; 1 Ts 5:6; Tt 2:13; 2 Tm 4:8). -
O Arrebatamento é uma recompensa, não uma parte garantida da salvação.
O Arrebatamento é visto como um prêmio reservado para "vencedores" que amam a manifestação de Cristo e vivem em santidade (por exemplo, Fp 3:11; 1 Co 9:27; Hb 9:28; 2 Tm 4:8). -
Múltiplos arrebatamentos durante a Tribulação.
A igreja está dividida: os preparados são levados primeiro; outros crentes são arrebatados depois conforme se tornam prontos, ou ao final da Tribulação. Algumas formulações efetivamente propõem uma série de arrebatamentos. -
Tribulação como purificação para cristãos carnais.
Aqueles deixados para trás são verdadeiros crentes, mas devem "passar pelo fogo" da Tribulação para serem purificados da mundanidade e do pecado. -
Principais textos de prova.
Passagens comumente citadas incluem:- Mateus 24:40–42 ("um será levado, e outro será deixado")
- Mateus 25:1–13 (a parábola das dez virgens)
- Lucas 21:36 ("orai para que possais ter forças para escapar de todas estas coisas")
- 1 Coríntios 9:27; Filipenses 3:11; Hebreus 9:28
- 1 Tessalonicenses 5:6–10; Tito 2:13; 2 Timóteo 4:8
- Apocalipse 3:3, 10–11

A visão é frequentemente motivada por um desejo sincero de promover santidade e vigilância. Mas boas intenções não podem compensar exegese fraca ou inconsistência teológica. Devemos perguntar: Esses textos realmente ensinam o que a visão do arrebatamento parcial afirma?
3. Examinando os Principais Textos de Prova
3.1 Mateus 24:40–42 — "Um será levado, e outro será deixado"
Defensores do arrebatamento parcial comumente equiparam Mateus 24:40–41 com o Arrebatamento:
"Então, dois homens estarão no campo: um será levado, e deixado o outro; duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será levada, e deixada a outra."
— Mateus 24:40–41
Eles argumentam que os "levados" são crentes vigilantes arrebatados; os "deixados" são cristãos despreparados ou incrédulos. Mas o contexto imediato aponta para juízo, não libertação:
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Jesus compara Sua vinda aos dias de Noé (Mt 24:37–39). Nos dias de Noé, os "levados" foram aqueles arrastados em juízo; os "deixados" foram Noé e sua família, que entraram em um novo mundo.
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Lucas 17:34–37, uma passagem paralela, torna isso explícito. Quando os discípulos perguntam: "Onde, Senhor?" a respeito dos "levados", Ele responde:
"Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres."
— Lucas 17:37Aqueles "levados" são levados ao juízo, não ao céu.
Assim, Mateus 24:40–41 descreve uma separação no retorno pós-tribulacional de Jesus: incrédulos "levados" em juízo, sobreviventes crentes "deixados" para entrar no reino. Não distingue cristãos espirituais e carnais em um Arrebatamento pré-tribulacional.
3.2 Mateus 25:1–13 — As Dez Virgens
A parábola das dez virgens é central para a visão do arrebatamento parcial. As cinco virgens prudentes (com óleo) representariam cristãos espirituais arrebatados para as bodas; as cinco virgens néscias (sem óleo) seriam crentes não espirituais deixados para trás.
Contudo:
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Nos Evangelhos, óleo comumente simboliza o Espírito Santo. Não ter óleo é carecer totalmente do Espírito, o que é verdade para incrédulos, não para cristãos desviados (Rm 8:9).
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As virgens néscias são excluídas permanentemente:
"Mais tarde, vieram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço."
— Mateus 25:11–12Jesus nunca diz aos Seus: "não vos conheço" (cf. Jo 10:27–30).
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Mateus 24–25 (o Discurso do Monte das Oliveiras) está situado em um contexto judaico e tribulacional, tratando de Israel e do retorno de Cristo após a Tribulação, não do Arrebatamento pré-tribulacional da igreja.
As virgens prudentes e néscias retratam salvos e não salvos (dentro do Israel professante), não membros fiéis e infiéis do corpo de Cristo. A parábola adverte que mera profissão não é suficiente; é preciso verdadeiramente pertencer a Cristo antes que Ele retorne.
3.3 Lucas 21:36 — "Orai para que possais ter forças para escapar"
"Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que hão de acontecer e estar em pé na presença do Filho do Homem."
— Lucas 21:36
Defensores do arrebatamento parcial argumentam que apenas aqueles que vigiam e oram "escaparão" — isto é, serão arrebatados. Mas:
- A passagem se dirige àqueles que estarão vivendo na Tribulação, predizendo eventos pouco antes da queda de Jerusalém e da angústia do tempo do fim.
- "Escapar" não é definido como o Arrebatamento, mas como fé perseverante em meio a severa provação.
- Mandamentos para "vigiar" e "orar" aparecem por todo o Novo Testamento como exortações gerais à prontidão e santidade, não como condições para manter a justificação ou garantir lugar no Arrebatamento.
Lucas 21:36 chama os crentes à vigilância espiritual, não a ganhar elegibilidade para um arrebatamento parcial.
3.4 1 Tessalonicenses 5:6–10 — Acordados e Adormecidos
"Assim, pois, não durmamos, como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. ... Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele."
— 1 Tessalonicenses 5:6, 9–10
Defensores do arrebatamento parcial agarram-se ao chamado para permanecer acordados (v. 6) e argumentam que apenas os vigilantes escapam da "ira". Mas note a conclusão de Paulo no versículo 10:
- Os verbos "acordados" e "adormecidos" neste contexto descrevem vigilância espiritual versus letargia espiritual, não vida física versus morte (aqui Paulo usa katheudō, não koimaō que ele usou para morte física em 4:13–15).
- No entanto, ele afirma que quer estejamos acordados ou adormecidos, "vivamos em união com ele". Todos os verdadeiros crentes — vigilantes ou não — compartilham o mesmo destino escatológico.
O texto exorta os crentes a viver consistentemente com sua identidade ("filhos da luz"), mas explicitamente afirma que o destino está fundamentado na morte de Cristo por nós, não em nosso nível de vigilância.
4. Razões Bíblicas Pelas Quais Todos os Crentes Serão Arrebatados
4.1 O Claro "Todos" de 1 Coríntios 15:51–52
"Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta."
— 1 Coríntios 15:51–52
Paulo revela o "mistério" do Arrebatamento: uma geração de crentes que não morrerá, mas será transformada. Crucialmente, ele insiste que "transformados seremos todos":
- O "todos" inclui todos os santos da igreja, tanto espirituais quanto carnais, como no resto da carta (cf. 1 Co 1:2; 3:1–4).
- Paulo não introduz nenhum qualificador espiritual; a transformação é uma bênção universal da união com Cristo.
Se apenas alguns crentes fossem arrebatados, este versículo seria fatalmente enganoso.
4.2 1 Tessalonicenses 4:16–17 — Todos Que Estão "Em Cristo"
"Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor."
— 1 Tessalonicenses 4:16–17
Observações principais:
- A única condição declarada é estar "em Cristo". Este é o termo padrão de Paulo para todos os verdadeiramente salvos (1 Co 1:2; Rm 8:1).
- O grupo arrebatado inclui todos "nós, os vivos" naquele tempo — não um subconjunto espiritualmente elitista.
- A preocupação pastoral de Paulo é confortar crentes enlutados (4:18), assegurando-lhes que os cristãos falecidos não ficarão de fora, não advertir cristãos carnais de que podem ser deixados para trás.
Se Paulo acreditasse em arrebatamento parcial, este seria o lugar para advertir os indisciplinados. Em vez disso, ele dá segurança incondicional a todos que estão "em Cristo".
4.3 A Unidade do Corpo de Cristo
A Escritura apresenta a igreja como um corpo único e unificado:
"Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito."
— 1 Coríntios 12:13
Remover apenas parte do corpo de Cristo no Arrebatamento enquanto deixa outros membros genuínos na terra seria:
- Fraturar a unidade do corpo que o batismo do Espírito criou.
- Implicar que alguns membros estão menos verdadeiramente unidos a Cristo do que outros.
- Minar a imagem da noiva de Cristo, que é uma entidade corporativa única (Ef 5:25–27; Ap 19:7–8). Cristo não se casa com Sua noiva em pedaços.
A teologia do arrebatamento parcial divide o que Deus uniu.
4.4 Salvação pela Graça, Não por Mérito
O Novo Testamento uniformemente ensina que todos os aspectos de nossa salvação — incluindo a glorificação — são pela graça:
"E aos que justificou, a esses também glorificou."
— Romanos 8:30
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé... não de obras."
— Efésios 2:8–9
O Arrebatamento (nossa transformação e encontro com Cristo) é o desdobramento culminante dessa salvação. Tornar a participação contingente ao nível de devoção ou vigilância do crente:
- Mistura graça com obras, transformando o Arrebatamento em recompensa por desempenho em vez de dádiva de redenção.
- Ameaça a segurança; os crentes nunca podem saber se vigiaram ou sofreram o suficiente para se qualificar.
Recompensas pela fidelidade são de fato ensinadas (1 Co 3:10–15; 2 Co 5:10), mas estas dizem respeito a graus de recompensa e responsabilidade no reino, não inclusão básica no Arrebatamento ou na ressurreição.
5. Problemas Teológicos com a Visão do Arrebatamento Parcial
5.1 Ela Requer uma Ressurreição Parcial


Se apenas crentes "dignos" são arrebatados na vinda inicial de Cristo, então apenas parte dos mortos em Cristo seria ressuscitada naquele momento, com outros crentes sendo ressuscitados posteriormente. No entanto, a Escritura conhece apenas:
- Uma "primeira ressurreição" dos justos em múltiplos estágios (Cristo as primícias, depois os que são de Cristo na Sua vinda, depois os santos da Tribulação/Milênio), e
- Uma ressurreição final dos ímpios (Ap 20:4–6, 11–15),
não uma ressurreição escalonada de crentes espirituais versus carnais dentro do mesmo grupo. Não há apoio bíblico para uma ressurreição parcial dos santos da igreja.
5.2 Ela Esvazia o Tribunal de Cristo de Significado
Se crentes infiéis são punidos sendo deixados na terra para sofrer a Tribulação, então:
- Muito da função do tribunal de Cristo (2 Co 5:10; 1 Co 3:10–15), onde as obras são avaliadas e recompensas atribuídas, é efetivamente realocada para a história.
- O Bema se torna amplamente redundante; o verdadeiro juízo disciplinar já ocorreu pela exclusão do Arrebatamento.
A Escritura, contudo, coloca a avaliação das obras dos crentes após o Arrebatamento, no céu, não durante a Tribulação na terra.
5.3 Ela Transforma a Tribulação em um Purgatório para Crentes
Ao ensinar que cristãos carnais devem suportar a Tribulação para serem purgados do pecado e tornados aptos para a presença de Cristo, a visão do arrebatamento parcial:
- Implica que a morte expiatória de Cristo não foi totalmente suficiente para lidar com a culpa e penalidade do pecado dos crentes.
- Introduz um purgatório terrestre — um período de sofrimento severo para limpar os crentes.
No entanto, o Novo Testamento declara que o sacrifício de Cristo aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10:14). Deus pode disciplinar Seus filhos nesta vida (Hb 12:5–11), mas nenhum sofrimento expiatório ou purificador adicional é necessário para qualificá-los para a glorificação.
5.4 Ela Confunde Israel e a Igreja em Textos Proféticos
Muitas das passagens sobre "vigilância" usadas para apoiar a visão do arrebatamento parcial são extraídas do Discurso do Monte das Oliveiras (Mt 24–25; Mc 13; Lc 21), que:
- Foi proferido antes de a igreja ser formada em Pentecostes.
- Diz respeito a Israel, Jerusalém e eventos na Tribulação que antecedem o retorno visível de Cristo.
- Fala dos eleitos em sentido amplo, não especificamente de crentes da era da igreja.
Ler condições de arrebatamento parcial para a igreja nessas passagens ignora sua audiência e contexto originais, e obscurece a distinção bíblica entre Israel e a igreja.
5.5 Ela Interpreta Mal as Passagens sobre "Vigilância"
Chamados do Novo Testamento para vigiar, estar prontos e amar a manifestação de Cristo (por exemplo, 2 Tm 4:8; Tt 2:13) são:
- Exortações éticas que fluem da salvação, não requisitos de entrada para bênçãos escatológicas.
- Apelos para viver à luz de nossa esperança segura, não advertências de que podemos perder o Arrebatamento.
A visão do arrebatamento parcial efetivamente transforma exortações pastorais em ameaças, minando a segurança do evangelho e deslocando o foco da fidelidade de Cristo para nosso desempenho flutuante.
6. Conclusão
A visão do arrebatamento parcial, embora frequentemente motivada por zelo pela santidade, repousa em textos mal interpretados e teologia falha. Ela:
- Interpreta mal textos de juízo como textos de arrebatamento.
- Divide o corpo e a noiva unificados de Cristo.
- Funde graça com mérito ao fazer do Arrebatamento um prêmio para os dignos.
- Requer ressurreições parciais não escriturísticas e transforma a Tribulação em purgatório para crentes.
Em contraste, o testemunho consistente da Escritura é que todos que estão "em Cristo" serão arrebatados e transformados quando Ele vier buscar Sua igreja. Vigilância, prontidão e amor por Sua manifestação são as respostas apropriadas a esta esperança graciosa, não as condições que determinam se compartilharemos dela.
Os crentes devem, portanto, viver em reverente expectativa, sabendo que:
"Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos."
— 1 Coríntios 15:51
"E, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras."
— 1 Tessalonicenses 4:17–18
Perguntas Frequentes
O que é a visão do arrebatamento parcial?
A Bíblia diz que apenas crentes dignos serão arrebatados?
Como os defensores do arrebatamento parcial usam Mateus 25 e as dez virgens?
O chamado à vigilância significa que posso perder o arrebatamento se não vigiar?
Por que a visão do arrebatamento parcial é considerada problemática teologicamente?
L. A. C.
Teólogo especializado em escatologia, comprometido em ajudar os crentes a compreender a Palavra profética de Deus.
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